terça-feira, 2 de novembro de 2021

Hortênsias e Penicas

 

Uma tarde na esplanada 

D. Penica, senhora de idade considerável ;
cabeleira, peruca em forma de penico,
atarrachada na cabeça quase calva,
não fosse uma desvairada ventania
arrancá-la à força e cobrir as suas faces de vergonha.
Macėrrima e má cara.
Fazia-se acompanhar das duas filhas; a primogénita,
Beatrizinha, logo a seguir; Dorzinha e dois filhos da primogénita;
Inocêncio e Larito.
Beatrizinha; uma graça engraçada,  roliça, rechonchudinha,
sem ornatos, nem enfeites e muito meiguinha.
A irmã,  mais nova, ainda solteirinha
temia os homens e ninguém sabia  porquê.
Escanzelada desde os dedos dos pés, à ponta dos cabelos,
os mais  gozões  equiparavam-na ao pai,
pela carência ou ausência de curvas e das saliências
naturais das mulheres.
se o pai fisicamente se assemelhava a um pote inchado,
o mesmo não se diria de D.Penica, no entanto, muito vivaça,
uma força física surpreendente.
Porém,  as duas irmãs muito chegadinhas
partilhavam conversas  entre elas.
Larito, sentado à direita da avó, 
o mais velho dos dois irmãos ; aprumado, pouco dado a risos
ou exibicionismos, cantor de fados, aplaudido pela afinação.
Talento herdado do pai, um fadista conceituado de profissão
que abandonara a família muito cedo.
Larito, possuía dois encantos físicos, a combinação
dos grandes olhos, duas luas,
iguais aos da mãe e a elegância do pai.
Inocêncio, do lado esquerdo, sorridente como a mãe,
até se perceber, o logro que  escondia atrás dos dentes
Um riso trocista, cínico,  matreiro...
Já acima do peso, lábios grossos e vermelhos.
D. Hortênsia, distinta senhora, cabelo grisalho, farto,
ondeado, trajada a gosto. Boa comunicadora,
ar afável e saudável,
olhos pequenos esverdeados e sedutores.
Teresita, a filha,uma  jovem bonita, solteira, sozinha,
atenta a tudo, preocupada e amável .
De um lado, a mãe, do outro, a sobrinha;
Pureza, adolescente bem parecida,
cabelo comprido, bem tratado e liso.
T' shirt decotada, calções curtos,  bonito corpo.
Muito cobiçada e disputada pelos irmãos Larito e Inocêncio
mas não lhes ligava nenhuma.
Concentrada nela própria,  nos seus atributos físicos. 
Ar enfastiado e contrariado.
Sem a menor disposição para estar ali...
O seu lado narcísico, 
massajava repetidas vezes os cabelos,
mirava-se constantemente
como se quisesse ter a certeza
que tudo em si estava perfeito.
Logo a seguir, consultava o telemóvel,
Objeto sempre disponível.
Seguidamente, cruzava os braços e quedava-se
muda e esticada, sobrancelhas altivas.
 
Eis que surge Gonçalito, um rapaz descontraído,
cabelo negro, pastado e comprido até aos ombros.
Rosto quadrado e tisnado.
Ocupou a cadeira ao lado de D. Hortênsia,
que o recebeu com alegria e passou a mão direita
 nos ombros e na cabeça :
- Oh! Quem chegou?! - exclamou D. Penica visivelmente desagradada
- Porquê, não posso? - perguntou  irritado
D. Hortênsia colocou a mão sobre a dele.
- Tens a língua solta! - provocou D. Penica
- A senhora implica comigo! - reagiu áspero
- Eu implico contigo porque tu és insolente!
-  E o que é que eu estou fazendo agora?!- interrogou com espanto
- Eu sei como és na escola, o Inocêncio conta- me tudo...
- Ele conta-lhe o que também faz? -
- Inocêncio, diz lá como é! - D. Penica pediu esclarecimentos
- Eu nunca me comporto mal ! - justificou-se o neto sorridente
- Ah! Estás a ver, fala por ti e de ti e não acuses o meu neto!
- Eu vejo as professoras escreverem  recados na caderneta dele!
-  Não inventes! E agora também és mentiroso?- acusou a senhora
- Não,  não sou mentiroso, ele que diga! - elucidou  o rapaz
- Inocêncio, como é? - trovejou D. Penica abestalhada com os contornos da situação.
- Ate hoje, nenhum professor me escreveu na caderneta! - o rosto de Inocêncio  ficou sério
- Ele rasgou?! - Gonçalito atirou convincente
Beatrizinha,  até aí calada, continuou calada mas pensativa, um clarão escuro assaltou-lhe  o rosto e os olhos.
- Serias capaz?! - voltou-se para o neto
- Nunca, avó! - de repente, Inocêncio simulou uma  tristeza repentina
- Eu bem sabia! Tu não prestas! - continuou  D. Penica
Teresita, trocou um olhar cúmplice com a mãe e sugeriu:
- Gonçalito,  vamos dar uma volta ?
O rapaz nem respondeu, levantou-se imediatamente.
- Partia-te esses ossos todos, um por um !
Gonçalito,  enquanto se afastava dali, virou-se horrorizado:
- A senhora é uma velha chata!
Naquele instante:
- Gonçalito! - Teresita pronunciou com voz de espanto e repreensão e puxou-o pela mão.
Inocêncio parecia divertido, da tristeza, se alguma aconteceu,   nem se lembrava mais dela.
Entretanto D. Penica para D. Hortênsia:
- Aquele diabrete quem julga que é?
- O Gonçalito não é mau miúdo, precisa que o compreendam! 
- Só a sua filha para o aturar! - observou a outra
- Ele agora acalma , pede-lhe desculpa e ficamos todos em paz.
- Eu não desculpo, não merece,ele que  faça por merecer! É pólvora!
Nesse exato momento vem Teresita:
- Foi para casa! - informou os presentes.
- Na próxima,  ele desculpa-se com a D. Penica- esclareceu Teresita e imediatamente a seguir:- Mãe, eu vou pedir a conta para irmos!
- Nós também vamos! E quanto a esse pequeno pedir desculpas, é escusado,  a má educação corre-lhe nas veias! Haste torta, nunca mais endireita.
- Eu não penso assim, D. Penica, devemos tratar de recuperar e não atirar às feras, aí sim, é  perdê-lo definitivamente,  peço desculpas em nome dele... - rematou Teresita pondo um ar sério e ponderado.

Subitamente, Inocêncio saiu dali a correr sem dar explicações e Teresita pôs-lhe os olhos em cima, que  mau pressentimento. Tinham pago as respetivas contas quando Inocêncio voltou, com o mesmo sorriso de sempre nos lábios grossos e nas bochechas, porém, sempre a olhar para trás.
Levantaram-se  da mesa e de repente Inocêncio cinicamente apontava para o outro lado do passeio.
- Lá está o tinhoso de novo! - resmungou  D. Penica
- Tem pedras nas mãos e vê-se que está muito transtornado, repara naquela postura, naquele rosto! - murmurou  D. Hortênsia  para a filha
- Pois! - os olhos de Teresita fulminaram  Inocêncio ,  que distraído e encantado com a cena, nem se apercebeu de nada. Agilmente pediu à sobrinha;  Pureza para  amparar a avó no percurso de volta a casa, enquanto ela ia ter uma conversa com o primo. 


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

"Somos uma floresta em movimento "

 “Somos uma floresta em movimento, 

somos um ser vivo em movimento.

 Defendemos a nossa natureza; 

defendemos as nossas árvores, 

os nossos rios, defendemos os nossos peixes, 

os nossos animais , o nosso ar puro, 

a nossa água limpa e os nossos filhos. 

A natureza reage, os seres vivos reagem

 e o desequilíbrio atual é uma mensagem clara, 

se o homem se continuar  neste rumo,

 será a nossa destruição. "

"Não há sistema de uma força tão criadora de ilusões como o capitalismo.  Promete uma progressão e um crescimento permanentes, prosperidade mas ao mesmo tempo, faz com que não vejamos as consequências. As potências deviam pensar se querem garantir a vida ou a aniquilação dos seus filhos. "

"O poder tornou-se invisível,  organizou-se em grandes redes e não está ao nosso alcance.  Se quisessemos alterar algo nem saberíamos por onde começar.  "

" Se deixarmos as decisões nas mãos de uma elite, desligada do que se passa nos outros níveis, vão fazer de conta que não aconteceu nada.  "

"Quando uma espécie desenvolve comportamentos de interajuda e não  de concorrência,  essa espécie consegue enfrentar as crises e prosperar.  É preciso sair da ditadura do medo, é  preciso fazer perguntas.  Mas isso tem de ser feito com inteligência coletiva. Conseguimos mobilizar a inteligência coletiva com as instituições que temos hoje? Não! 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

“Somos uma pandemia”

 “Tivemos o vírus da colonização, o vírus da escravatura, o vírus da alienação, o vírus dos valores humanos, o vírus da destruição das culturas da selva”

“ Nós somos como o vírus. Estamos a destruir a terra- “Somos uma pandemia “ 

Eu acrescento, o vírus da corrupção…


domingo, 10 de outubro de 2021

Dorminhoco

 Abriu  aquele olho espevitado e cravou-o em mim. Bocejou ruidosamente, espreguiçou-se, puxou a roupa da cama e voltou a adormecer .

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Cegueiras

 Observas através de um minúsculo quadrado, habituaste-te a isso, há muito tempo, resolvi amarfanhar o quadrado para ter a visão total. 

domingo, 3 de outubro de 2021

Obsessivo- compulsivo

 Tolero um suão inesperado,

 incómodo e pegajoso de mosquitos 

Custa mais a suportar a dor do corte na carne,

quando a faca desce impiedosamente. 

O golpe fundo, a ratoeira de olhos fitos ...

podres de traidores.

Antítese do bem,

seres feios de alma.

Há gente sombria, nascida sob o signo de qualquer maldição;

 noite de temporal

vingança  certeira 

manias de perseguição. 

Gestos armadilhados rondam a presa,

desejo incontrolável e inexplicável de "abate". 


domingo, 26 de setembro de 2021

Gente e ursos

 Gente como nós sente  com maior intensidade... 

por isso fica no centro das horas obscuras de nevoeiro 

a matutar e a contar pelos dedos os ursos que morrem à nossa frente

Olhos de gente, olhos de ursos, rasos de lezíria, 

água pesada, luz condoída ...

O desgosto de ter as mãos atadas, 

sob pena de voltarem a nós furiosos e de nos matarem

Ursos esfaimados , deveras esfaimados, 

tornam-se bravios e perigosos

Mas, vê- los ali, quotidianamente,  a fintar à nossa frente,

a tentar a sua sorte; restos da pesca, um peixe esquecido na rede... 

Observar os bichos a definhar , magricelas, o pêlo ralo e chamuscado, 

já nem ursos são! 

A fome a chegar aos dentes afiados, desatam aos urros e rugidos desesperados.

Lambem durante muito tempo as crias fenecidas, à  míngua de alimento. 

Ursos pensativos,  abatidos na sonolência, da claridade frouxa que se apaga

lentamente,  sucumbem entre as rochas da baía, estendidos, perdidos de agonia.

Os rugidos muito mais brandos e fracos, numa prece última. ..

Uma faca espetada no peito de gente como nós;

 as patas dianteiras seguram a cabeça,  passam pelo focinho ranhoso de choro e ali se acabam devagar, em sofrimento lento. 

Um qualquer dia, há-de chegar  peixe de fartura, parca temporada...nessa altura correm sôfregos a saciar a fome de tanto esperar...depois, a comida volta a faltar.

Gente como nós tem de assistir a isto, a fome e a morte por ali, sempre a rondar.