terça-feira, 22 de agosto de 2023

Confissões de mães

 Mulher, casada , sem filhos, de bem com a vida, nós  os dois com  posições sociais médias, sem muitas  razões  para nos  lastimarmos. Eu e o meu marido temos o hábito de trocarmos impressões sobre a nossa vida em comum e o que se passa à nossa volta. Às vezes temos opiniões diferentes mas não entramos em rota de colisão por isso. Presentemente,  há muita guerra aberta nos casais, por não saberem escutar-se. Não há respeito, nem tolerância,  nem amizade e muito menos amor. Não querem saber o que cada um tem para dizer e a luta pela supremacia anula qualquer possibilidade  de entendimento, desta forma não vão  a lado nenhum,  duas cabeças a pensar, facilita, torna tudo mais leve, mais suportável,  é muito melhor, quase sempre,  como  teoria funciona, na prática já não. Papaguear não custa nada. Ceder, é que é  uma chatice, porquê? "A minha ideia é melhor que a tua". Aqui entra a competição .  Estamos a falar de casais, equipa de duas pessoas, apenas duas! Então o  companheirismo para onde foi, o sentimento que os unia, se algum dia existiu...? Alguém  vai receber um troféu  por  demontrar a sua supremacia? Compreende-se isto? porquê?  Mau!  Temos nas respetivas famílias, casos dramáticos, gente  com muita  formação, no entanto,   pouca ou nenhuma dignidade, falta de crescimento emocional,  crianças num corpo adulto, tanto no sexo feminino como no masculino,  assistimos e ouvimos falar de  situações muito complexas.  Todas as famílias arranjam um filho ou filha para ser bode expiatório e outro para ser a estrela, depois fazem comparações entre o patinho feio e o patinho lindo.  Infelizmente,   transmitem a "mensagem" aos outros membros, todos precisam saber quem é um  e quem é o outro. De qualquer forma, as duas vidas, vão ficar estragadas, uma por defeito, outra por excesso; o primeiro por inseguranças e medos , a segundo, por se julgar o maior, o melhor, torna-se um narciso.

 O mal corre  mundo todo.  Criou raíz porque está tudo doido.  Basta ter opinião contrária ?! Depois, há uma expressão muito em voga que me faz nervos; a liberdade de expressão. Qual liberdade de expressão? É liberdade de expressão  enxovalhar, difamar, ridicularizar,  rir do outro!? Tenho a impressão que estou perante uma máquina demolidora. Dizem-me alguns descontraidamente;  foi sempre assim e vai continuar a ser. Não compreendo a banalidade com que  tratam certas situações complexas e delicadas.
Vamos a nós, o nosso relacionamento  nunca foi  um carrossel, nem com  subidas íngremes,   nem cambalhotas  estrondosas e abismais. Somos dois seres calmos, sentimo-nos bem assim.  Julgo que o meu marido nunca me traiu, pelo menos  que seja do meu conhecimento, desde que eu não saiba nem perceba...se escorregou que silencie. Se eu soubesse, só perdoaria mediante um perdão muito bem feito, sem direito a mais deslizes. Se eu não faço,  não estimo que me façam. Se eu não cometo adultério... As mulheres do meu tempo foram educadas para sofrer em silêncio,  serem castas, senhoras da sua casa, o homem podia colecionar amantes,  a nossa obrigação era fechar os olhos  e a boca  e pensar; " são homens, já se sabe". Esta tendência para normalizar , generalizou-se ..e se for  figura publica é  semelhante. Muda-se de par   como quem muda de casaco, filhos à mistura, do primeiro relacionamento,  do segundo e por aí fora ...  Depois, são pais infelizes e filhos infelizes.  O mundo dos nossos dias, é  um daqueles quadros de artistas famosos,  atormentados, desconhecidos de  si mesmos,  a sentir um mal imenso, sem remédio. Na maioria das vezes, imensa fama, na mesma proporção da mágoa e da angústia. O desfecho é quase sempre  trágico.  Voltando a nós, começamos a namorar numas férias de verão, em época de estudantes, havia colegas por todo o lado. Subitamente os olhos cruzaram-se e ali  nasceu um brilho intenso e novo. Dois anos depois fomos conhecer as respetivas famílias e  três anos mais tarde, decidimos dar o nó. Numa consulta, percebi  que não podia conceber filhos.  Então,  consumida por uma enorme desilusão,   comuniquei-lhe urgentemente, se acaso ele quisesse desistir,  a resposta foi sempre a mesma ao longo dos anos; " Amo-te muito para que isso me afete". Não me arrependo de nada.  Ele não se arrepende de nada. Podíamos ter recorrido à adoção mas sabemos de casos, o processo é burocrático, moroso e difícil. Lamento pelas crianças que anseiam por uma família.
  Sou uma mulher feliz e realizada. Temos a nossa casa, a nossa intimidade,   as nossas crispações, nunca adormecemos sem nos desculpar, já não somos crianças  para amuos infantis e desgastantes,  graças a Deus. A vida é curta demais para perdermos tempo com desavenças. Cultivamos o respeito mútuo, sou a melhor amiga dele, ele é o meu melhor amigo. Torna tudo  muito reconfortante e suave.  Ele tem o meu ombro para o que precisar, e eu sei que tenho o dele para me apoiar. Continuamos a namorar, não é  teatro para o exterior,  é  sentido por ambos, caminhamos de mãos dadas, desenlaçamos as  mãos quando cada um vai onde tem de ir. Desde que eu saiba onde foi, com quem esteve, os detalhes? contamos  se valer a pena. Vamos desfrutar da vida, rir muito,  dividir as tarefas,  ir a encontros com amigos, fazer visitas aos parentes de um e de outro,  a  museus, a exposições e outras festividades ou efemérides, viajar para o exterior.  Até porque  não sabemos quanto tempo mais vamos andar por cá, mas espero envelhecer ao lado dele até ao fim das nossas vidas.

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Não era a hora

 

Tanta coisa me coze por dentro
Desassossega-me o anacronismo
Da morte  antecipada
Num dia, vejo uns olhos despertos
Sem os tais sinais mortais 
No dia seguinte, anunciam o fim?!
Tenho de morder esta  dúvida
Já anda muita gente a moer a revolta
A selar caixões de  boca cerrada
Tanta mentira semeada
A verdade sempre fechada
Os profissionais  jovens;
Ai  vidas que ficarão
A perder pelos séculos fora
Amanhã vítimas da mesma decisão carrasca
De cortar o fio sem autorização

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Uma lenda

 


Amélia, nome de rainha,  última soberna da casa
o alguidar da massa, dos bolos
dos bigodes desenhados  no buço
 no queixo, nas boquinhas abertas das crianças

E o fado cantado, a subir de tom
uma melodia sentida de Amália ...
Os olhos castanhos,  que infância escondes?
Num cofre bem guardado, segredos tamanhos
ninguém conhece o lugar  onde está

Amélia,  olhos rasos de lezíria
Corpo em abalos de comoção
Tão alegre e tão sofrida
 contrários estados de alma:
 depressivos, tempestivos
Sonhos varridos,  uma grande mulher

Amélia ventania, suave maresia
Orquídea de sapatinho
Amélia, saltos altos
Chinelos, casa em ordem e sem mácula de pó
Escadas, camas, quintal , tudo num " brinquinho"

Amelia armava  a tenda,
Pendurava lençóis  de linho
a pequenada contente ia almoçar para dentro
Depois, faziam adivinhas; onde havia
uma casa amarela com janelas azuis
E  gente feliz por dentro

Ventos sopravam de Inglaterra
Navio carregado de supresas boas
A massa de cabelos soltos
ondulavam até meia serra,
Unhas escavadas, envernizadas,
Lenços e écharpes de várias cores

Amélia vaidosa, grande sedutora
Na Azinhaga muito conhecida
Por ser reta por ser justa
Vida longa ,duradoura

Amélia, adormeceu, transcendeu
A vida de Amélia acabou
Parece mentira
Mas a existência de Amélia não terminou


Em  Jerusalém, Amélia, vai  purificar o coração
E aí há-de com Cristo ressuscitar

Oh Amélia, oh Amélia!
Ainda havia nesses olhos um fio de esperança

Fim - dia 2 de Julho , domingo, reta final da tarde, pelas 19:15
Descida à última morada - 4 de Julho (Santo António) 















quinta-feira, 18 de maio de 2023

Certas horas do dia

 

Dá  gosto ver as serras recortadas  no  azul
do céu,  coladas sem  rasuras, 
as cores puxadas para o vivo!
se ao menos passasse um rio por cá
sempre molhava os pés
na  água baixinha
Ficava a escutar  um suave murmúrio balbuciado,
arrepiado  ao roçar os seixos
Um  prazer  inteiro só de sentir;
o ruminar leve  dos queixos a  salivar
a   brisa fresca
 O monte humedecido  de uma primavera  imperceptível
Côncava  abóbada arco-íris
Às  narinas sobe um vapor cheiroso
de comida saudável , afogada em  arroz  húmido,
aparência suculenta
É de fechar os olhos...
O sol inclinava e da água  sumia a claridade espelhada,
lá  por  cima, passava um corso de nuvens sanguínea
As cores quentes anunciavam  naturalmente calor,
sobre aqueles lados do mar; rica decoração!
Agora, é apressar o passo, antecipar-se  à chegada do crepúsculo
Não que as sombras assustassem 
Nada que os candeeiros não iluminassem...
a não  ser a mal intencionada gente
que sai à hora do agudo piar das corujas.



quarta-feira, 12 de abril de 2023

Confissões de outra mãe

 Separada ,  um filho, e, sem nenhuma vontade de voltar a casar ou me envolver com homens.  Na  juventude  namorei apenas  o meu ex marido,  aquele  doce amuado ; parcos  diálogos, andámos  de mãos dadas. Na minha altura,  olhar fixo, sorriso maroto, meio enviesado, talvez manhoso, um piscar de olho, fazia-me feliz,  era o pó mágico do dia. O meu calcanhar de Aquiles foi  o ciúme, um ciúme doentio. A paixão de uma jovem simples e acanhada .  Era Deus no céu e o Rafael na terra, a minha cegueira impedia  de  ver racionalmente ; nós não tínhamos nada em comum. A minha grande  esperança era mudar a cabeça do Rafael. Ele era o oposto de mim,  o meu marido era ação,  eu teoria. Em comum ? a timidez, a inexperiência da vida a dois,  o que nos diferenciava?  a educação. Eu, uma menina, criada com boas maneiras,  boa aluna, excelentes notas, querida dos professores, querida da família. O modelo de perfeição dececionou os mais próximos  por ter namorado e casado com  o  homem errado, indivíduo com poucos estudos, escassa  instrução,  sem cultura, porém, muito trabalhador, empenhado e despachado, capaz de qualquer empreitada, o oposto de mim. No noivado cometi muitos lapsos dos quais, interrogo-me se  tivesse agido de outra forma, como teria sido a minha vida? Comecei logo com inseguranças e medos infundados. Coloquei um atrelado no pescoço do Rafael ,  proibi-o de se dedicar aos seus hobbys, retirei tudo; jogos de futebol, encontros com amigos, saídas isoladas por  razões individuais  , eu calculava  o tempo que ele deveria demorar. Uma insanidade da minha parte. Ele era interessante a nível físico e isso mexia comigo, quando as outras lhe faziam "olhinhos" eu virava do avesso,  uma tremenda  revolta tomava conta de mim e não conseguia me conter, eram todas umas putas e cabras e reagia em voz alta, procurando indícios nos olhos dele; saber se aqueles olhos verdes  também tinham devolvido olhares às outras.  Quando me volto para trás, tenho pena de não ter acordado mais cedo. Desde o início que o meu casamento estava condenado ao fracasso, vivíamos face to face, a sufocar, eu respirava o oxigénio dele e vice versa.   Passava a vida a inferiorizá-lo e de tanto repetir que ele não era nada sem mim, que tornei-o num ser nulo, neutro, incapaz de resolver qualquer problema sem pedir o meu conselho e isso causava-me um prazer tremendo, era tê-lo na palma da minha mão. Naquela altura, significava  amor para toda a vida. Dali já não sairia, chamava-o  à  atenção por tudo e por nada. Maquiavelicamente, comecei a perceber o quanto ele  era um fantoche nas minhas mãos, flexível, fácil de manobrar. Perante  os familiares e estranhos, eu era vista como a soberana, aquela que tem o comando de tudo; Uma mulher ao volante , uma mulher que não permitia que o idiota do marido fosse mais esperto que ela. E , se por acaso ele tomasse qualquer atitude sem previamente me consultar,  eu atirava logo à cabeça,  depois  lia-lhe  no rosto  a aflição e o arrependimento. Isto dava-me um  tremendo poder.

Engravidei e senti-me maravilhada, o Rafael, um pai dedicado,  à  medida que o filho foi crescendo,  eu comecei a querê-lo  só para mim,  só eu sabia  educar, tudo o resto eram interferências abusivas e desnecessárias,  de repente, a criança  começou a dar jeito, comecei a pô-lo entre nós,  sempre que o Rafael me procurava para ter sexo, aludia que a criança estava ali, nem pensar,  que podia acordar, se chorasse, aconchegava-o,  quando íamos  de férias,  arranjava o mesmo entrave,  a criança vinha para a  nossa cama.  O Rafael  foi perdendo a paciência, o interesse por nós os dois, eu constantemente a apontar defeitos em tudo; nas risadas, nas graçolas, nas conversas, nas ideias, nas decisões. Ele a  tornar-se uma fera muito  mal disposta e isso era um ponto a meu favor. Os que me cercavam odiavam-no pelo mau feitio,  e , eu lastimava a minha sorte por estar atada àquele marido, havia um filho... por isso, por outro lado,  convencia-o  das vantagens de estar a meu lado.   Precisava muito da mão de obra. A relação tornou-se tóxica, e esquecemos que a criança crescia e observava cada gesto nosso, o Rafael  cada dia mais revoltado, a cuspir fogo para todos os lados.  Eu sempre a depositar  toda a desgraça sobre os ombros dele. As discussões aumentaram substancialmente de fervura. Já haviam transbordado. Não o suportava, a presença dele causava-me asco.  Deitei mão a  outros interesses para salvar a minha pele, precisava urgentemente sair daquele caos que eu mesma havia criado, mas cometi outra atrocidade,  levei ambos comigo para onde quer que fosse, convenci-os  e puxei-os à força .  Outras vozes se ergueram  e tentaram me fazer compreender o quanto estava errada. Ninguém me apontasse  falhas, trepava paredes,  eu era  perfeita e todos conspiravam contra mim. Não admitia um reparo, uma observação, nada. Tornei-me impossível.  Comecei a perceber que o filho já não era uma criança, era um  adolescente, no entanto,  interessava-me continuar a tratá-lo como uma criança para poder exercer o meu domínio sobre ele também,  por não saber lidar com ele  de outra forma.  O meu grande receio era perder as rédeas  do que tinha conseguido,  o controlo das várias  situações,  sem perceber que já tinha perdido toda a noção do ridículo, do patético, dos meus limites. Então, assustava-os, amedrontava-os, manipulava-os. Aos poucos , o meu  filho adoeceu emocionalmente, eu precisa de dois bodes expiatórios e consegui no meu imenso narcisismo e ilimitado egoísmo.  Enaltecia   os meus predicados, para que notassem que eu era uma mãe atenciosa e perfeita, o  meu desempenho tinha de aparentar  intocável.

O meu filho já se libertou das grilhetas que o amarravam a mim e ao pai, foi um processo complicado e moroso, passou um mau bocado.  O  Rafael tornou-se o meu eco, tem medo que eu conheça outro homem e eu tenho medo que ele se encante por outra mulher, também sei que estamos juntos porque é importante   para ambas as partes. Que será dele sem mim e de mim sem ele?   Não partilhámos  a mesma cama, de qualquer forma  não o posso perder, é o meu braço direito para tudo. E ele está ciente do estatuto que ganha a meu lado.   Se por acaso, algum dia, eu quiser alguém, tem de ser nas mesmas condições em que estou agora. Viver de outra forma, é tarde demais. Eu teria de renascer.  Quero um Rafael idêntico ao meu.  Sou má, sei que sim, mas  ele não é nenhum santo; conheço-o bem; mentiroso como eu, aldrabão, invejoso como eu, cínico, insubmisso, rebelde, criador de conflitos. Muito provavelmente,   no nosso caso será,   até que a morte nos separe. 

 


domingo, 5 de março de 2023

Confissões de uma mãe

 

Mulher, casada, mãe de três filhos,  estados de espírito controlados, picos de emoção fortes, adequados às situações. Às vezes preferia ter nascido homem, há imensas vantagens; não   menstruam uma por mês durante toda a vida, não engravidam e consequentemente desconhecem  as dores do parto.  Não lhes são  impostas as mesmas responsabilidades que às mulheres.  Ganham salários mais altos. Urinam de pé que é mais prático. Mudar de sexo? Fora de questão. Nem pensar. Nasci, vivo, respiro  e acabarei os meus dias como mulher.
 
O amor? é intemporal,  nunca esteve  fora de "moda", " mudam-se os tempos e a vontade, todo o mundo é composto de mudança, sublinho (há mudanças e mudanças...) tomando sempre novas qualidades...( que qualidades?) "Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança"...( Diferentes em tudo da esperança!)  Nunca me foi dado a observar tanto desamor como agora, transversal à  sociedade; facto inegável! Apesar dos alertas, continuamos a descartar atitudes saudáveis,  a descartar afetos, a descartar o que é vital para nós. Os mais novos? O reflexo dos mais velhos, entretidos a nadar insistentemente no  virtual. Que realidade? Que laços? O retangulozinho extensão do braço.   Loucos por  amor ao digital, aos jogos, perdidos em conversas arranhadas, suprimidas, gatafunhos mal urdidos, sem nexo, sem lógica, embebidos de sensações baratas; "meia pataca". A diversão do álcool, do sexo,das  drogas e das mentiras. A geração dos caprichos, não foram feitos para grandes esforços , as redes sociais dão-lhes boleia para o estrelado; cabelos esticados, maquiagem à farta, vestuário arejado, é de suprema importância exibir  as curvas e os músculos. Correr nas áreas vizinhas,  não pela saúde,  pela  moda e vai outra fotografia;   num estalar de dedos e Hollywood à  vista! Contudo, sem talento, sem cultura, e uma falta tremenda de  inteligência,   nasceram cansados. Os pais pouparam os  filhos  das dificuldades e esconderam as partes pesadas e sofridas, esqueceram de ensinar aos (t)chicos , a lidar com as frustrações. A sociedade dá à luz jovens  que enchem pavilhões,  festivais de música, bares e discotecas. Partilham imagens das bebedeiras uns aos outros! mostram-se ao planeta sem nenhum receio ou  pudor... sem maneiras...habituados ao supérfluo.  Quanto mais caídos,  melhor! Grande farra! Viciados nos likes, nas visualizações, não suportam um "Não "nem compreendem,  por isso disparam à queima roupa, eles têm direitos e fazem birra em voz alta, ai de quem lhes mexa, nessas "aquisições",   eles têm necessidades e querem satisfazê-las logo, adiar impacienta-os ,  eles têm expectativas muito altas, disseram aos (t)chicos que eles eram muito bons, por isso continuam a querer, numa sede insuportável e insaciável e já ninguém os atura. Estudar é chatice, uma maçada! Exigem diplomas  para alimentar o ego insuflado,   sem conhecimento teórico e duvidosa capacidade de exercer qualquer atividade ou ofício.  
A responsabilidade  é nossa, dos adultos, perdemos,  fomos mesmo cegos, surdos  e tontos,  não soubemos formar, nem educar, em momento algum paramos para ver a realidade . Ter atenção ao que estávamos a criar! A sociedade não assume , não  quer, não consegue, não pode,  facilitamos demais e agora resta enfrentar o nosso terrível fracasso. 

As mulheres? O seu estatuto de mães é fundamental  na qualidade da educação, são elas as verdadeiras obreiras na continuidade da espécie.  A arquitetura da família que se conhece hoje, deixa muito a desejar. É fraca, é pobre. Não pode dar bons frutos. Para se ser mãe,  primeiro que tudo, é sentir vocação, estar preparada, ter  responsabilidade e maturidade! Há muita leviandade e os resultados são visíveis.  Podem negar com o slogan do politicamente correto, a realidade contradiz essa publicidade enganosa.
Conheço muita mulher  má;  mentirosa, hipócrita, terrivelmente  manipuladora,  péssimas mães, que exemplos?!   mal resolvidas, mal estruturadas,  pobres de espírito, no entanto, a grande maioria  julga-se excelente mãe! Não há exame de consciência. Tal como as crianças levam para a escola a má educação  vinda de casa, as mulheres transportam o mesmo  para o local de trabalho; quando atingem cargos de topo;  má conduta,  falta de ética, sem escrúpulos, tirania,etc,etc. Quem puder fugir, que se ponha a milhas. Quando se fareja o poder, tanto faz homens como mulheres, é tudo igual ; Deus nos acuda!
As desgraças formam-se quando os (t)chicos, apesar de novinhos já distinguem o bem do mal, praticam a maldade, julgando-se ilibados,  salvos pello ambiente familiar onde estão inseridos. Cuidado, a vida não se compadece disso, se já tem noção dos seus atos,   será melhor não ir por aí,  começam cedo os amargos de boca. Preparem-se! Que alguém os ensine isso mesmo.
 
Os meus filhos? Boa pergunta.  O meu marido e eu  acertamos numas,  desacertamos  em outras. Procurei  a via do diálogo,  mesmo quando havia zangas que chegavam ao limite, o tempo é bom conselheiro, após a  fervura baixar,  calmamente introduzir a palavra. Abre-se uma brecha de sol por entre um céu fechado e é nesse tempo que devagar procurei chegar ao outro lado. Resultou sempre? É óbvio que não.  Não desistir, é o meu lema. Aprendi, errei, chorei, ensinei, deixei atalhos, contornei alguns, meti por outros...
Se me considero feliz? Sim, sem qualquer dúvida! A felicidade não é viver num mar de rosas; pedi ajuda ao meu marido e vice-versa, aos filhos quando atingiram a idade adulta, socorri-me  de  profissionais de saúde mental, procurei padres para ouvir o conforto das suas palavras, inclusive  algumas religiosas, nomeadamente freiras. Tive amigos que me deram atenção quando precisava e outros que me voltaram as costas.
Nunca fui mulher de andar constantemente aos prantos e lamúrias. Quando  necessário,  vou mesmo aos cornos do touro, depois, logo se vê. A vida não  é  só dor, nem só alegria. Sofrer por antecipação também está fora de questão.  Rir com vontade se for caso disso e contrariamente,  chorar copiosamente se for caso disso. Somos de opostos, quem pensa ficar fora desta lógica, vai se dar mal. Enquanto pudermos,   pouparemos  os filhos a preocupações nossas. Eles precisam seguir as suas vidas com independência e autonomia,  nós os dois, igualmente . Temos nos desenvencilhado bem, somos amigos um do outro, sem traições, uma relação de cumplicidade mútua; de respeito, longe de ser perfeita!  Mas tenho muito orgulho no projeto familiar que erguemos. Os meus filhos são unidos,  e sinto a amizade deles para connosco. Sigo  descansada e em paz. Mais tarde, precisarei de me libertar do trabalho e me dedicar a outras atividades que me dão prazer e realização, tanto a  mim quanto  ao meu marido. Cada um de nós seguirá as suas motivações,  de forma saudável, desprendidos e soltos.   Ao contrário da frase ; "o trabalho liberta", uma expressão conhecida por constar à entrada de certos campos de extermínio do regime nazista .  Um paradoxo total, como tudo o que se conhece  deste regime. Quando os loucos chegam ao poder, corre-se perigo... a História está cheia deles ; cito uma frase de Aldous Huxley que fala das ditaduras do futuro, eu acrescento, as falsas democracias do futuro e Aldous continua assim; ..." produzirão uma espécie de campo de concentração indolor para sociedades inteiras, de modo, que, de facto, poderão tirar às pessoas as coisas mais fundamentais que, no entanto, ficarão satisfeitas e até felizes com essa situação porque foram desviadas de qualquer desejo de rebelião  por meio de drogas, propaganda  ou lavagem de cérebro."  Há países onde é possível reivindicar mas... há consequências embora não saibamos...
Certos profissionais ficam desejosos de colocar um ponto final à sua carreira, porque são pouco valorizados, mal remunerados e o ambiente de trabalho é péssimo, por vezes, prisões austeras, lugares irrespiráveis,inóspitos,  um sufoco mortal, onde se pratica uma verdadeira caça ao homem , uma perseguição doentia. Isto é mais que suficiente para retirar a vontade de permanecer,  retira o sossego do homem mais tranquilo. Sem condições, não se consegue tirar   proveito algum de nada . A idade ideal de se reformar é inequivocamente aos sessenta anos, sem as terríveis e  injustas penalizações. As pessoas estão cansadas, fartas , caso contrário,  ficam por obrigação  mas desempenham mal as suas funções. Desta forma, os serviços  não funcionam bem. É ocaos, agarrar-se a quê, então? Aos telemóveis!
A morte é  um tema delicado. Muito íntimo, singular. O ponto de viragem. A grande viagem!  Uma morte digna?  A acompanhia dos  seus. Presenciei certa vez um senhor a morrer na sala aberta, no serviço de urgência, à sua volta gente a gemer,  gente sofrida, gente desconhecida. E outro caso; este ainda pior, o senhor no estertor da morte, o biombo posto, na cama ao lado, as assistentes sentadas desportivamente , a contar anedotas, sufocadas em risos e garlhadas. Há lá coisa pior que isto? Alzheimer? Não é melhor morrer louquinho, que ter o seu juizinho e perceber que se está a partir sozinho?  Faz-me lembrar um filme,  do qual nada restou  a não ser uma  imagem, sei apenas que é  clássico;  um homem condenado à cadeira elétrica e no momento exato da descarga, o condenado interrompe o processo, pede que  chamem   o capelão, que está a assistir à execução,  para lhe desapertar o cinto, pois está a demasiado apertado, na zona da barriga. Para nós,  pode parecer um absurdo, para o condenado não. Além do direito de se sentir cómodo, o contato com alguém que lhe transmitisse conforto e salvação naquela hora pavorosa.
A pena de morte é a vingança  lícita,   um ajuste de contas, olho por olho, dente por dente. E, quanto a enganar-se ? Condenar inocentes? É tenebroso que ainda existam condenações deste género; injeção letal, cadeira elétrica,  enforcamento,  decapitação. Há um turismo mórbido a passear por lugares onde aconteceram estas execuções   sumárias, porquê? Respirar as energias fúnebres ?

A nossa sociedade tem desprezo pelos seus velhos; aterradora  negligência,  basta visitar lares e hospitais. Os familiares deixam os seus idosos  à mercê de profissionais descuidados; a maioria é sexo feminino;  mulheres insensíveis e mal formadas,  uma maneira de igualmente perpetuar o sofrimento ,  tornar mais enfermo  quem  já   se encontra  numa fase pouco saudável. Uma forma camuflada  de "atentado" aos mais frágeis e incapacitados  ,  sem qualquer sentimento de culpa, sem qualquer complacência. Vivemos num submundo, cada vez mais intolerante e desumano , que aposta forte  nos jovens belos, nas caras lindas e perfeitas, nos corpos invejáveis, tudo pela aparência,  o que sai destes padrões fica atirado ao esquecimento,  à negligência, aos maus tratos, à   sorte de ter caído em certas mãos.
 Para além desta vida deve haver outra forma de vida,  talvez uma nova Jerusalém, a cidade espiritual  de Cristo. Bem diferente daquela que é  do nosso conhecimento, foi e continua a ser. Torna-se  necessário   purgar, para poder  passar à fase seguinte  após um  profundo arrependimento.  Acaso não suceda  aqui, na terra, no outro lado, terá de acontecer, se quisermos a salvação. Sou crente, acredito em Deus, não na Igreja, à Igreja falta humildade, falta verdade,  falta verdadeiro espírito cristão e uma doutrina mais compreensiva e coloborativa com os pobres. A pobreza é uma verdadeira calamidade,  sem fim à vista!  Essa gente que pertence ao clero precisa ter uma ação muito mais ativa e generosa com os mais carenciados . Não pode, nem deve  aliar-se aos mesmos; aos ricos e aos poderosos, e tornar-se ela própria, um poder instituído.

E para terminar, esqueçam as divergências, não façam de todas as diferenças um cavalo de batalha, sejam mais tolerantes e menos cruéis. 
 É  urgente o amor e já passou há  muito o  prazo de espera...




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Em que mundo andará?

 

Passa uma nuvem,
 a visão turva,
o azul esverdeado, tom claro
molhado, escurece
A retina  ausente;
olhos marotos, garotos
sem o saberem
bordados  com o pó  dos anos
As costas em meio arco
descrevem o tempo  dos desenhos ornados à agulha
As toalhas sem fim... pelas tardes adentro
e  puxava a linha alva para si
numa devota inclinação
Seguia-se:
arrumar, limpar, preparar, lavar, varrer,  cuidar...
e de novo: cuidar,varrer,lavar,preparar, limpar...
Obrigações de uma senhora de bem.
deveres sem partilha, a repetição dos gestos,  dos sons...
Tão humana pessoa; as emoções a transbordar
da fisionomia;
O riso aberto, a lealdade  na expressão  e a eloquência na boca
Tolerar  birras,  mandos e desmandos  de marido,
 filhos, sobrinhos, irmãos...
 Vasculhar numa angustiante preocupação
o mais novo que lhe escapou por entre os dedos,
 por pouco não enveredou   por maus caminhos...
Mãos,  à custa de arrancar o gelo do congelador,
 ficaram com frieiras, inchadas, desajeitadas
Por cada  estremecimento
 desassossegos tamanhos
 o peito sacudido
Matutava  a meia voz,
maníaca compulsiva
 sussurro de lamentações ,
 prece religiosa
Que  desígnio de vida?
Os emaranhados,  as confusões
Um dia  a casa muda de lugar ;
Foi levada num silêncio pesado!
cantos e recantos...vasos e vasinhos,
flores e florinhas
Mas se tudo  estava  tão certo...
Bens adquiridos
Agora desconhece rostos,  nomes, nem o seu
as flores mudaram de cor?
Os lábios murcharam
por falta de água ...
Já não consegue verbalizar  o que lhe subtrai  a calma
A vida corre
solta,desvairada...
Pacientemente
fica assim,  à  espera,
sentada, sempre sentadinha
Já não canta como cantava...
Raras sílabas se  soltam
Sons fracos
Até ontem havia festa
Festa de palmas e vivas, canto e gargalhadas
Encantava e tornava a encantar;
Rebatia parede, janelas e portas,
Imaginação prolífica
Criava  personagens e  viagens
Então cresceu do lado de cá , a fantasia
que por milagre ficaria sempre aqui.
Tantas vezes ao fundo
As mesmas tantas subidas
Ir  e voltar
A eternidade reservada para si?
 Como um navio larga o cais;
 lentamente  vai se afastando,   imperceptivelmente
Calada e emocionada escutas; " Primavera das flores ";
parece ter avivado uma memória longínqua...