Havia poucos passageiros àquela hora, acima do começo da tarde, acontece às vezes, já que a maioria está nos trabalhos. O calor abafado, não me incomoda assim tanto, como o frio. A temperatura elevada, sem excessos, agrada-me, anuncia o começo do verão. Sempre tivera fascínio pelos brilhos desta estação quente, os reflexos dourados, a faísca suave, o ardor leve até o apertar mais atrevido. O sol a lamber o casario e os telhados...as ruas...a face, a roupa vestida. Os dias mais compridos, numa linha reta, esticada a perder-se no horizonte longínquo. Afasto a mania de deprimir ao antecipar já os dias curtos, nostálgicos e taciturnos de outono,inverno O que vem depois, há-de chegar na sua altura. Agora, quero sentir o começo desta estação, sem pensar no que virá. A tristeza serve para agoniar o coração. E que remédio senão aceitá-la quando chegar e conviver com ela. O autocarro percorre todas as curvas numa pressa louca, tal qual uma criança a correr desalmadamente pela casa e a qualquer instante espetar a cabeça numa parede.
Ali, na viagem, se acontecesse um despiste, como seria? Que horror! Iriam sangrar algumas cabeças e outras ficariam em estado grave e até...Ah, a morte, ai a morte! Que momento fúnebre e trágico! A morte é tão definitiva, ninguém regressa para contar aos vivos ... como é e mais importante, se estão bem. Por alguma razão os vivos nada sabem, é um segredo, é um mistério por muitas teorias vendido, umas mais caras, outras mais triviais, nenhuma satisfaz. Por muito que banalizem, a ideia da morte, será sempre perturbadora e traumarizante , muito estranha, assustadora para quem parte e para quem fica a ver partir. Há mortes calmas, tranquilas imiscuídas no sono, na cadeira habitual, sem um ai, e há outras demasiado penosas, ruidosas, tormentosas, resistentes. Porque será que são tão diferentes? A natureza do ser humano? Ou outra razão obscura? e isso fará diferença para o que há-de vir no outro lado da vida? Desconhecemos. Cada um passa na sua vez ou alguém antecipa essa vez, muito discretamente, com morfina, inaladores, pulverizadores...picadas intravenosas... tudo para alívio da dor!? Será mesmo? Ou causam mais aflição com o intuito de despachar aquele ser, que está a ocupar uma cama que deveria ser ocupada por alguém mais novo? Não se espera, é tudo muito apressado! Venha o seguinte! Imagine-se, será benéfico antecipar o derradeiro momento na terra e adiá-lo para os céus? a medicina interrompe o natural curso da vida, o que acontecerá posteriormente ? Fará diferença? A morte é o fim do acordo de paz entre corpo e alma. A carcaça é atacada por enfermidades sem remédio, oxida, já não pode acompanhar aquela alma, está pesada demais, exausta...a matéria de que somos feitos, o revestimento guarda o tesouro, a nossa essência mais intima, a índole, o fundamento, a coragem, o valor. O corpo utilitário fala e comunica numa linguagem própria. É este corpo e os órgãos que dão guarida durante anos , que trabalham em prol de qualquer ser humano, aquelas células que defendem a existência até ao fim. Resta saber se ao longo de todo este tempo , o ser foi capaz de dar afeto e em troca soube receber, se conseguiu concretizar a arte do encantamento, da entrega, da bondade, da delicadeza, da simpatia, da educação, da verticalidade de caráter, da postura correta. Move-se durante dias, semanas, meses , anos por entre momentos felizes e momentos infelizes. Se foi capaz de demonstrar pequenos gestos altruístas que fizeram a diferença e palavras de esperança, se confortou outras almas próximas. Aos poucos, o tempo, prega partidas para quem se distrai, e somos surpreendidos pelo surgir da enfermidade. De repente, apesar do cansaço que tomou conta do corpo de uma ponta a outra. Após alguma falha grave, surge aquela hora convulsiva do adeus. Não há volta a dar, nem chance de adiar, nem de fugir ou escapar. Deveras pungente, é imaginar que aquele corpo que se acarinhou, que se serviu, que se lavou,que se beijou que se abraçou , que se tratou com imensa ternura , carinho, devoção e amor, se estrague, desfaça, apodreça e desapareça. Mói por dentro refletir neste desfecho. O que reconforta, é imaginar que o amor dado seja a bagagem cheia que a alma transporta consigo.
Quem tem familiares que estão da partida conhece bem a dor que escava o paciente, um fogo aceso, crepitante, lento a crescer com os olhos esbugalhados de viés pedindo clemência, o coração a se contorcer, numa delirante inquietação, a boca semi aberta ensanguentada, os olhos preocupados e uma melancolia infinita. Magoa por todo lado, a aflição é tão forte que já não consegue se pronunciar e lá se aspiram as secreções que sufocam a garganta, o peito retoma um andamento mais sereno, mesmo assim, passados quinze minutos; sobe e desce numa escalada cruel, uma respiração tormentosa, como se lhe estivessem a roubar o oxigénio pelas costas, ou um furo a esvaziar os pulmões, com as mãos e os braços fincados em almofadas, soergue-se numa luta tenebrosa , como se pedisse ; Por favor, "Afasta de mim este cálice", Pai!" O corpo todo em tremuras. Dos pés à cabeça! Porquê? Foram as instruções dadas, duas gramas de morfina!? Ninguém pensou nos efeitos secundários?! As retinas caídas , abertas suplicantes. É o terror, o medo, o desespero do fim que se adivinha próximo. Que sofrimento atroz! nem um grito, nem uma revolta? A resignação de quem já não pode, já não consegue pedir socorro, já não há forças para dizer não! É um momento irrecusável para quem vai e para quem fica. Não há forma de impedir.