quinta-feira, 25 de julho de 2019

Que me deu de beber...?



-Que me deu de beber
gentil  e real   cavalheiro...?
Minha boca saboreia um estranho fel!
nublou-se-me a vista!
travou meus passos!
como se à  beira do fim me encontrasse?!
-Não preciosa donzela, deve tratar-se de uma
indisposição vossa...
-Que me deu de beber? Confessai!
-Esse mal estar pertence-lhe; o prenúncio do que
julgais que aí  vem…
- Em seu entender, que julgo eu?
-O vosso mal? não sois  suficientemente rica,
Sem nome grandioso… Sabeis que toda a
corte se ri de vós ? A vossa mãe demonstra o que sobejamente conheceis,
o vosso pai, sem instrução, sem terras, sem negócios promissores…
Consta que existem ascendentes nobres no vosso passado mas o sangue puro perdeu-se,
não lhes sucederam. A vossa linha não é a mesma,
querem- vos  mal. A mistura de raças…
Nunca poderá haver aliança entre as nossas famílias.
Pena, menina prendada, bela, bons atributos físicos e
com valores morais que aprecio, inteligente e instruída...
Uma fortuna deliciosa para qualquer homem que se preze
-Que propõe que façamos, então?
-Sermos amantes.
-Amantes?! Que horror! Casará com uma daquelas fidalgas da corte e eu
servirei para as escapadas ?!
Porque não enfrenta o seu pai?
-Ele deserdar-me-ia e passaria a ser um proscrito.
-Somos de famílias rivais devido à condição social.
Amantes, jamais!
-Esse teatro também me desagrada!
Perdoai querida donzela, custa-me pô-la nesta situação;
um atalho sem fim, que desgosto para mim!
-E o  vosso pai...tolerai que vos diga; grande fingido
Teme  os céus, profere  o nome de Deus em vão,
defende o bem e a justiça
Frequenta igrejas, joelha diante de altares.
Canta no coro e bendiz o Senhor?!
Que fervorosa fé é a daquele homem? 
Imita um cristão autêntico, que alma pequena, engano de pessoa 
- Tendes razão!Meu pai influenciou a corte, inventou coisas a vosso respeito!
Espalhou em cicio a difamação... Sinto vergonha pelo mal que lhe causa!
-Nem vos atreva ser malvado como ele,
nem  ides cochichar aos ouvidos de ninguém nada dos nossos encontros.
- Jamais!
-Enlamear ainda mais uma inocente! Que tirano!
-Nada vos acusa a consciência, não  vos apoquenteis, um dia ele terá 
a moeda de troca.
-Um dia, enquanto isso, sou vítima  de calúnias e maledicências
e ele sem nenhum dedo a apontar as imperfeições, continua embutido na sua vaidade
 no seu orgulho venéfico, desfruta dos seus melhores dias…
 -Melhores dias?
Não  julgue as aparências,  nem tudo é  como ele  faz crer...
Olhe que algumas vezes, não tão raras assim,
mostra-se sorumbático e indignado. Esqueçamos essa figura por agora
e diga-me,  amada menina ,o que nos guarda, o destino?
-Gostaria de lhe responder, receio nada ter a dizer, nem saber…
-E se fugíssemos os dois, sem deixar nenhum rasto,
Demorar apenas o tempo certo e partir o mais depressa possível
-E as consequências de tal acto?
- Refere-se a meu pai, dar-me-á caça por certo mas iremos para bem longe.
-Sinto-me mal por esta decisão…
-Deixe lá, já sou homem e almejo a minha independência,
amo-vos acima de tudo. Depois, chegou a hora de constituir
 a minha família... Tenho conhecimentos no estrangeiro,
farei uso desta possibilidade.

Dia da partida; encontram-se nas traseiras da quinta. Ela espera por ele impaciente,
de trouxa na mão,  capa escura, vestimenta discreta. Atira-se para dentro da carruagem.
 Beijam os lábios um do outro à pressa.
Ele incita os cavalos e a carruagem pôs -se em andamento
Mais alguns metros, freia bruscamente os animais.
Um vulto surge do nada.
Ele levanta-se assustado, inclina-se para fora, o coração perturbado:
-Senhor, queira afastar-se da frente, por favor!
O desconhecido retira o capuz.
-Mãe?!
- Meu amado filho, desejo-vos sorte, se é isso que deseja, vá depressa! Mande notícias!
Menina, o meu marido não aceitará uma descendente de escravos, lamento. Sejam felizes!
- Muito agradecida, minha senhora!
-Mãe! – enternecido, toma as mãos maternais e leva-as aos lábios, beija o rosto e envolve-a
num ternurento abraço.
Escuta-se um tiro!
- É seu pai e vem armado!Corra!
- Por favor, meu amado! – chama a donzela
- Mãe, que fará o pai consigo?! – fica preocupado
- Nada temeis, comigo não sucederá nada, filho, vá depressa!
Novos tiros são sibilados.
Os cavalos relincham, a carruagem levanta voo, num desvario de cascos.
Os olhos do rapaz rasos de água, pregados na figura materna:
- Querida mãe, mandarei novas! – promete num grito
- Fujam, fujam, fujam! - murmura a mulher entre dentes , enquanto o homem descarrega as
munições da arma, tentando acertar  na carruagem!
Num acesso de cólera e desapontado pelos intentos gorados, agride a esposa
com a coronha e fá-la resvalar para o chão.
Logo a seguir, apercebe-se que ela não se move, chama por socorro.
Mirando-se detalhadamente, temendo que alguém o apanhe de arma na mão
e pense o pior, esconde-a atrás de um tronco.
Baixa-se e tenta reanimá-la sem sucesso,
resolve carregá-la nos braços fortes e à medida que se aproxima da entrada:
- Acudam a madame, acudam!

PN

Imagem - NET
Personagens da novela " Deus salve o rei"( Não conheço a respectiva)

domingo, 30 de junho de 2019

Da tua boca não nascem rosas


Da tua boca não nascem rosas
Lamento dizer-te …
Toco a “excelência”de um ser
e o respingo é cáustico, áspero…
Índole mesquinha, alegoricamente obtuso
encrespado, abjecto, astuto
Sucedem-se birras conforme a utilidade,
complementadas com esgares,
momice imprópria para um homem de pelo na venta
Fica mesmo ridículo, feio, já te disse…
mas não escutas e foges dos espelhos!
Examino minuciosamente a representação ágil;
treino de disfarces; peças para resguardo do rosto
Brincas com os incautos, desvias a atenção dos mais atentos,
 enganas os pobres de espírito…
Trapaceiro e manipulador!
Os outros? Os outros são iguais a ti e também se servem de ti!
 agarram os ventos que correm oportunos… usam-se uns aos
outros;“prostituição” consentida…
Dono de um ego; um batalhão de soldados, que satisfazem
os teus desejos, vontades e pulsões primárias,
o “conselheiro” que devia cochichar aos teus ouvidos
a atenção a dar  aos valores morais e culturais, compraste-o!
Tens praticamente todos nas mãos, olha que obra medonha!
A corda bamboleia sob o peso estúpido dos teus pés…
Trôpego, e desastrado lá consegues fazer o teu número;
Já não sei se me chega aos tímpanos
copiosos aplausos
ou uma amalgama de assobios, vaia, ou troça;
ou dissimulam para te agradar
És dono de títulos "nobiliárquicos",
vives num castelo rococó de pó, gigantes de bolor trepam as
 paredes…e teias imóveis já sem nenhum vigor; pardas e sujas
Há uma ovelha do rebanho, novinha,
abandonada à sua sorte que vai pedir-te socorro:
- Pai, para que lado devo seguir?
- Vá poe-te a andar daqui, procura o teu grupo! – ordena trovejante
- É que não vejo ninguém, pai, não sei onde estão… - responde
desanimada
-  Quero lá saber! Não me incomodes, o meu grupo sei onde está!
( É o mesmo que dizer a um incapacitado,
numa cadeira de roda, levanta-te e anda)
Como? Por acaso és um deus? Nunca te vi fazer milagres!
Sei que és mestre na mentira, exímio na arte da manha
A tua ambição ultrapassa-te;
esmagas cabeças, entortas vidas, especialista em lavagens
cerebrais… e artista na tontice
“ Cospes no prato onde comeste …e voltas a comer no prato que cuspiste”
Contratas idiotas e cegos para desviarem quem vai no seu
caminho em paz, semeias o caos
Espera pela tempestade, tarde ou cedo abater-se-á sobre a tua soberania.
Entretanto, segues e trincas pessoas sem nenhuma comiseração;
Um sorriso “santo” nos lábios e um pedido de “desculpas”
 “natural”
A falta de limpidez chega à cave das tuas entranhas
Eu sou a pedra que desejarias fora do teu paraíso de fantochada!
Desgraçadamente estou sob o teu domínio…
Incomodo? Pois sim!
É pena, porque também eu sofro, com tão abominável figura.

 PN




sábado, 8 de junho de 2019

Doce fantasia



Sir- lawrence- Alma- Tadema-Courtship- The Proposal

Sorrio-te e namoro demoradamente                 
os teus belos olhos  siena queimada de rapaz,
deixo os meus azuis cinzentos
pregados nos teus e tu  ficas guloso por mais,
quando avanças,  pego  no galho de flores secas
e dou com ele, meigamente  no teu rosto fresco, é engraçado...ver-te assim, desarmado!
PN
 


domingo, 2 de junho de 2019

Amor de uma vida inteira


   Andre Kohn 

Conheci-a,
ainda imberbe e incauto…
aquela eternidade
que trava a proximidade
de um jovem sossegado
a uma jovem citadina; horizontes largos, desempoeirada
Os meus olhos mansos
repousavam distraídos
quando viram outros
que  passavam pelos meus...
  Causaram  em mim tal
embaraço e perturbação…!
No entanto, os meus encantaram-se por aquela visão;
Vi gaivotas rodopiarem em equilíbrio no puro côncavo etéreo
e chegaram para hospedar-se nas cordas do meu coração
Eu, navio despreparado, fundeado numa pequena baía marítima
fiquei  mesmo ali, imóvel,  sem  nenhuma acção,
regozijado naquela doce ilusão.
Certo dia, perdido em pensamentos quiméricos;
passeava devagar na orla do mar; pés nus, ténis ao ombro
  E, de modo imprevisto, fui atingido por uma explosão;
tomado por um fenômeno estranho;
Medo!
Recuei estonteado, meia dúzia de passos para trás,
 quase assaltado por uma síncope!  
Voltei-me para o lado inverso. Ajustei os óculos de sol,
engoli em seco, mexi as mãos; os dedos gelados
  estava ela, sentada sobre a areia fina,  virada para o mar,
Pernas cruzadas , "à  chinês "
Havia nela qualquer coisa  de hippie sofisticado
e isso desmoronava-me de susto
Permanecia imóvel ... Estaria a meditar?
A ansiedade crescente escalava uma falésia tenebrosa dentro de mim,
fiquei a espera de um sinal mais descontraído …
desejava muito agir mas sentia-me pregado ao chão. 
Quando a vi sair daquele estado hipnótico
avancei  cauteloso; o corpo todo a tremer,
dissimulei um encontro inesperado e fui convincente.
Cumprimentamo-nos de forma cordial,
ela convidou-me a ficar e partilhar aquele momento a seu lado.
Falamos de imensas coisas; a voz dela musical...
Julgo que fui além da conta; um jorro de euforia
brotava de mim. Um frenesim louco mas sem atitudes precipitadas…
O toque da mão  dela no meu braço; um afago delicioso
tão  delicioso que me calei de repente
Senti-me apanhado por um redemoinho;
ela suavizou o constrangimento abrupto
A minha parte tonta sem chão era um disparate…
foi ali, frente ao mar que tudo começou;
Na transparência das águas, um compromisso!
Selado, num acordo de paz entre corpo e alma
Sentia-me em festa, havia reflexos em tudo
aos meus olhos nus e indefesos!
Naquela tarde, à hora crepuscular, despedi-me dela.
Depois, encontrávamo-nos em todas os lugares da escola; na sala de aula, mesmo a par,
no pátio, na cantina, no bar , nos corredores…
De noite sonhava com ela....
Um dia, a minha mão pousou inadvertidamente sobre a dela,
imediatamente a  seguir,  um corisco desceu sobre mim;
o coração sofreu um choque estrepitoso
Quando nos encaramos os dois, olhos nos olhos,
os meus olhos confessaram finalmente  ...
e os dela recetivos, responderam implicitamente que sim,
 foi aí  que segurei a mão  dela com mais  força e nunca mais a soltei.

Poema inspirado num casal que conheci de vista nos meus tempos de secundário.
Durante muitos anos perdi-lhes o rasto, quando voltei a vê-los, caminhavam lado a lado na
mesma aparente cumplicidade.
PN

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Instável (a)mar


                                     Rafal Olbinski opera e surrealismo

Raras vezes consigo tocar-te …
mas vejo-te através de mim;
tu não deixas mais…
assaz pungente; o silêncio estrondoso, excessivo e denso
este vácuo cheio…_______________________________
Inesperadamente chegas
como um verdadeiro estranho
ah! e eu cheia de amor para te dar.
Leio discretamente as linhas do teu rosto;
tentando adivinhar…
não encontro os teus olhos!
Os teus olhos inseguros, põem-se em debandada,
arredados dos meus e os meus tentam buscar
 os teus fugidiços da alma, porquê?
Como se o nosso amor não fosse imenso!…
Ainda tentas…fica quase, quase…
Depois, bamboleias nas redes
que só tu vês, nas veias das minhas mãos.
Desesperado, saltas e atiras-te como um louco
de volta ao teu mar.
Talvez um dia, quem sabe…
Aprendas a ler o sentido implícito
das grandes  e complexas questões do ser humano
e decidas  ficar.
PN

terça-feira, 7 de maio de 2019


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Tempo de Adoração da figura abjecta

Encontro frequentemente o beijo de Judas.  Ele espreita o meu rosto, vem acariciar a pele macia; sinto um roçar  de casco duro tocar, lança  um sorriso manhoso, dos olhos, um frio metal a fingir de ternura e uma fisionomia revestida de candura. 
Digo para mim;  foge depressa dessa coisa ruinosa, pegajosa e mentirosa porque está  na moda mentir; e está  na moda ser manipulado e gostar de ser manipulado para ficar do lado de dentro , ainda que seja obscuro. 
PN