segunda-feira, 15 de março de 2021

O teu nome e outras palavras

 Eu a tentar apanhar o teu nome, como outras palavras rasuradas,  a puxar as letras, para vê-las à claridade, na esperança que chegassem. Certa que imediatamente aflorariam aos meus lábios. Sem nenhuma comiseração, os teus olhos continuaram impassíveis, fixos nos meus, boca lacrada. Eu a tentar não desistir de nada... tiveste espaço para me alcançar, em vez disso, adotaste essa postura, onde senti uma nítida e odiosa superioridade.  

segunda-feira, 8 de março de 2021

O ajuste de contas

 

O telefone ressoa e a secretária atende.
- Bom dia, gabinete do Dro Fera.
- Bom dia, desejo falar com o Dro Fera.
- Quem devo anunciar?
- Lobo Mau, por favor.
- Aguarde um momento...sim?
- Sim.
Pausa.
- Vou passar já a sua chamada!
- Obrigado! 
- Então,  Lobo! - soa a voz entusiasmada do Dro Fera - a operação foi um êxito!
- Como sabe?
- Estou por dentro de tudo! Julgaste que tiraria o olho de ti...
- Nesse caso, não existem novidades a transmitir! Precisamos acertar a minha parte.
- Quero ter o prazer de escutar certos pormenores...
- Dro Fera, está na hora de...
- Detesto que me interrompam! Cala-te e deixa-me terminar o raciocínio! - berra e atropela as palavras, afogado em raiva.
- Desculpe, pode continuar, Dro Fera.-  responde o Lobo, manso
Silêncio.
- Vá,  prossegue! - o Dro Fera recompõe-se e ordena.
- É assim, fiquei mais próximo da dita cuja e ela aos poucos foi-se confessando, e eu naturalmente também me expus...
- Que queres dizer com isso ? !
- Tive que engendrar uma vida para mim! A de Lobo bom,  decente, boas famílias,  caso contrário o plano  esfumava-se.
- Um  cordeirinho por tempo indeterminado e provisório.
- Exatamente, fui obrigado  a agir assim...
- Obrigado?! Quem te obrigou a ...?
- Espere...
-Outra vez a cortar a palavra?! Já te avisei que odeio interrupções, és surdo?- de novo, a voz irada
- Não senhor, Dro Fera, peço desculpa!
- Vá,  siga!
- Siga , para onde?
- Continua a tua narrativa,  estúpido! 
- Retomo a exposição dos pormenores,  confesso que não foi fácil! A dita cuja era o que julgávamos; esperta, inteligente,  atenta... 
- Salta essa parte! Chegaste a casar com ela?
- Sim, casei com ela, uma cerimónia  rápida,  sem ninguém, só nós dois, um falso padre ... por isso, não valeu de nada!
- Apaixonaste-te por ela?
- Jamais,  ela não possuí os requisitos que me atraem!  Sem encantos...A dita cuja é  muito travada!
- E sexo antes do casamento?
- Não! Nem se deixa arrastar para isso! 
- Que idade?
- Dezessete anos!
- Maior de idade!  Não te apeteceu forçar nada?
- O plano esteve sempre presente na minha cabeça!
- No teu lugar, aproveitaria tudo o que estivesse ao meu alcance, comigo, não havia de falhar! - remata folgado
- Ao contrário de si,  eu não queria mesmo! Se a atração faltou...
- És parvo, "a ocasião faz o ladrão "! Adiante!
- A lua de mel era uma surpresa minha, a dita cuja desconhecia que o destino da viagem era a  Sibéria,  embarcou sozinha, fiquei para trás,  esqueci de propósito uma das minhas malas. O avião arrancou sem mim.
- A reacção dela?- ri-se com gozo
- Como vou saber?
- Questionavas a hospedeira!
- Isso que importa!?
- Fiquei curioso, imagino-a atarantada a agir tal qual uma barata tonta! Dá-me prazer!
- Neste momento, nada sei dela!
-  É óbvio, já morreu congelada, nem teve tempo para enfrentar os lobos selvagens! - agora, sufocado em riso, controla-se e pergunta -  Sentes dó da dita cuja?
- Antes ela a dar-se mal que eu, não sinto nada, indiferença absoluta!
- Eu sou Fera mas tu és mesmo Mau!
- Sou Mau ao seu serviço!
- Tu ofereceste-te, ninguem te forçou a nada!
- As circunstâncias forçaram! - explica - Temos pontos a ajustar!
- Lobo Mau, como é possível teres levado... quanto tempo nisso?!
- Três anos!
- Impressionante! 
- Tenho uma lista de nomes importantes, sei de factos inéditos, conheci os amigos dela! Estou na posse de imenso material valioso!
- Calculo, quero isso tudo amanhã, na minha secretária! 
- Então, vou ai?
- Esquece, eu envio alguém da minha confiança à  tua casa, entregas todo o material e desapareces de cena, hás-de receber um bilhete de avião e segues para Paris! Lá, serás encaminhado para um cargo de grande responsabilidade.
- E os suplementos extra que me prometeu? 
- Quais ?  Um cargo vitalício, férias sempre prolongadas, uma  habitação nova e  toda mobilada,  uma conta choruda no banco  ?
- Foi o acordado!
- Empregaste demasiado tempo nessa operação! 
- O tempo necessário!  
- Não  me interessa, o acordo não  viabiliza esse tempo, essa duração! injustificável! Uma eternidade para convencer uma fedelha de dezassete anos!Por favor!
- Aparentemente e só aparentemente uma miúda carente, ingenua,  pacata...
- Problema teu, ou aceitas a minha proposta ou nada, escolhes nada?
- Pensando bem, aceito o que oferece.
- Feito!  - e desliga a chamada.

O Lobo Mau, atira furioso o telemóvel à  parede:
- Animal! Fera maldito! Vais ver como é,  verme!
No dia seguinte, o Lobo Mau, entrega o envelope lacrado e recebe o bilhete.
Mal  o desconhecido se apaga  da vista, corre para dentro, agarra  a mochila, o capacete,  cá fora, monta a moto de alta cilindrada e esfuma-se a toda a velocidade.
Quando o envelope chega às mãos do Dro Fera, este abre e depara-se com folhas em branco, sentindo-se traído,  desata aos berros e espuma pela boca!
Todas as tentativas de encontrar o Lobo Mau, revelam-se infrutíferas:
"Eu apanho-te, rato! Mais tarde ou mais cedo vais cair! Andas a provocar a pessoa errada!"
O Lobo Mau viaja Europa  dentro e a vida corre-lhe de feição,  mais tarde, entra na Índia. Três anos depois, é vítima de atropelamento e morre a caminho do hospital.
Na mesma altura, o Dro Fera, é acusado de vários crimes obscuros. Embora tivesse negado sempre,  é preso.
Quanto à  Capuchinho,  paradeiro incerto, hipoteticamente   conseguiu sair da Sibéria e dizem que se encontra em lugar incerto, algures, na Europa.






quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A emboscada

 O lobo mau andava a visitar a floresta  com a sua  comitiva, em comentários abonatórios, altos uivos. O efeito ; exaltar os resultados  da desflorestacão por ali praticada. O intuito;  erguer empreendimentos Pós-  modernos, tecnologia de ponta.  A certa altura, um dos lobos, o mais sagaz,   avistou a Capuchinho Vermelho, uma rapariga   que usava uma lingugem nova, invulgar e incomodativa. Lá  estava ela,  numa babada simpatia com alguns animais. Comentaram entre eles que alguém teria de pôr cobro à  situação; afastá -la  dos amigos, privá -la do contato social, difamar e confinar a rapariga ao exílio precoce, exercer discretamente bullying, proibir de se aproximarem dela, ou arcariam com  as consequências dessa  familiaridade  ou contrariamente, receberiam  prémios  para escorraçar  aquela figura dali. O mesmo  lobo voluntariou-se para ser o primeiro a entrar em cena.  Começaria por ser uma abordagem  tranquila, com requintes primorosos de sedução calorosa, assemelhando-se a uma  amizade única, como a Capuchinho jamais,  alguma vez, imaginaria  viver.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Roda comigo

 

Penso  em rio, mar, domingo plano ,  céu aberto, passeio ... 

Fios azuis ,  olhos de peixes, onde gosto de demorar o meus  olhos...  ursos polares tocam banjo... e estou com eles. 

Rodo, rodo, rodo a saia, rodo os pés, rodo o leme do barco, rodo a lua, rodo o sol... rodo a minha cabeça, rodo a tua cabeça e tu gostas e é  engraçado.   Eu rodo o planeta ... e tu ris...
Arrisca e risca e rabisca o guião. 
 Solta a nota que há em ti e vem dançar aqui! Esquece os  vendavais, e outros temporais...Abraça- me  e diz que estamos bem... sonha comigo e vamos parar o dia e a noite, um  tempo a rodar só para nós.  

Nota: Descontraia! 
           

domingo, 31 de janeiro de 2021

Pensamento solto

 A tua boca fala certas coisas...  os teus olhos disdizem essas mesmas coisas... e a luz que surge neles, por vezes, intimida... de tão estranha. Não sei se te sentes e apercebes mas nem ouso  revelar-te. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A nossa felicidade

 

Não foram convidados a entrar!
e muito menos a interpretar
os gestos, os gostos, as palavras...
nem ajuizar sobre as camas desfeitas,
nem tecer observações acerca dos móveis coalhados de pó
e afastem essas dilatadas retinas a sondar minuciosamente
certos esquecimentos, certos desleixos
das roupas atiradas sobre cadeiras, sobre  camas e mesas
e nem escapam os espelhos sujos, riscados e abocanhados nas pontas...
Há espíritos inquisidores, espias sorrateiras...
quem se vê naquelas  bocas !?...
Agora, se me apetece estender as pernas na esplanada,
fumar demoradamente um cigarro e escrevinhar poesia,
grande qualidade dos meus versos, e bem entendido,
publicar livros e vendê-los aos amigos do Facebook.
Aindam duvidam das minhas reais capacidades? 
Sem mencionar as centenas de fotos, onde vou...
partilho tudo convosco;  eventos culturais,
não perco um... sou feliz!
Que importa se esbravejamos? Se atiro os filhos contra o pai?
Nem se atrevam a colocar em causa a minha conduta
como mãe extremosa; sou muito melhor que ele,
Ele não é nada,  a culpa da nossa desgraça é dele!
Ele estraga tudo onde toca!
Os filhos são o reflexo  daquele homem...
Mal educados, barulhentos, refilões, sem interesse por nada .
Detestam a escola...
Em nada se assemelham a mim...
a  utilidade deste homem, é ser motorista particular da família !
Os meus filhos já estão na psicóloga...salvaguardados!
Esperneamos por tudo e por nada?se me defendo com mentiras?
Hábito que adquiri do marido!... as contrariedades são muitas...
Quem não se comporta assim? Toda a gente falta à verdade!
Entre quatro paredes enconde-se muito segredo.
Somos falíveis e sem capacidade para nos corrigir. 
Nascemos tortos,  na recta final,  vamos nos arrepender
e com sorte, haverá  um lugar no céu
Um lugar privilegiado, idêntico ao da terra 
para fazer jus à pessoa que sou
E conto com um anjo que me fará todas as vontades! Porque mereço!
Ninguém precisa saber de nada!
Somos narcísicos? Somos egoístas? 
Que drama!
E o mundo não se apresenta cada dia, mais deformado? 
Somos infelizes? Quem conhece melhor a minha casa que eu?
A vida é bela, sou eu que afirmo.
Socorri-me da vossa ajuda no pretérito, foi!
agora é  escusado, afastem-se.
Ninguém vos pediu, para tomarem , como vossas , as minhas dores.
Lamento, fiquem do lado de fora.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A gaivota e o outono

 És uma gaivota entre muitas outras gaivotas  que anseia estrear as asas, experimentar o vôo novinho em folha,  porém,  há empecilhos que estorvam o natural desdobrar do teu corpo, boicotam os teus intentos, forçam -te a  curvares a espinha mal inicias a tentativa ... Incutem pensamentos negativos nessa cabeça sonhadora e,  a ganhares mais e mais  acanhamento. Desvitalizam cada passo dado. Desvalorizam qualquer esforço. Ao impor obrigações absurdas, sujeitam a tua vontade à  vontade deles  e comprometem o teu futuro de forma  inequívoca. O Outono  desce compadecido e põe-se à  escuta, a voz embargada, dialoga contigo, mapeiam juntos possíveis caminhos para te livrares dessa asfixia total e sem fim à vista.   Ocasiões há, em que prefere recolher-se para  prantear sozinho,  baixinho, num orvalho contido e sentido,   por saber-te apanhada  num  sofrimento atroz ... e ele pouco pode fazer para que livres desse fardo  cruel. O trabalho mais árduo é  defender-te de ti própria,  da armadilha que ajudaram a criar  para ti .  E o pior dessa dor, que o atravessa todo,  é  já  não te reconhecer;  estás a ficar refilona, azeda, a responder irascível, sempre contrariada, na defensiva.

 O outono, ignora se vai a tempo do "conserto" . Assemelhas-te aos teus carrascos e malfeitores. Uma gaivota  fortemente perturbada, a nascerem--lhe   desejos requintados de malvadez,  que só pensa em vingar a sua dor  em todos aqueles que te aterrorizaram e continuam a  causar-te danos irreparáveis. Perdida, num poço fundo de tristeza ...  essa  desconfiança vê  em cada sombra um inimigo a abater.  É   preciso muita  paciência para   tratar-te , empregar diligências e remediar essa cordilheira  de estragos...  recuperar algo de ti... principalmente o perdão!
PN