domingo, 26 de setembro de 2021

Gente e ursos

 Gente como nós sente  com maior intensidade... 

por isso fica no centro das horas obscuras de nevoeiro 

a matutar e a contar pelos dedos os ursos que morrem à nossa frente

Olhos de gente, olhos de ursos, rasos de lezíria, 

água pesada, luz condoída ...

O desgosto de ter as mãos atadas, 

sob pena de voltarem a nós furiosos e de nos matarem

Ursos esfaimados , deveras esfaimados, 

tornam-se bravios e perigosos

Mas, vê- los ali, quotidianamente,  a fintar à nossa frente,

a tentar a sua sorte; restos da pesca, um peixe esquecido na rede... 

Observar os bichos a definhar , magricelas, o pêlo ralo e chamuscado, 

já nem ursos são! 

A fome a chegar aos dentes afiados, desatam aos urros e rugidos desesperados.

Lambem durante muito tempo as crias fenecidas, à  míngua de alimento. 

Ursos pensativos,  abatidos na sonolência, da claridade frouxa que se apaga

lentamente,  sucumbem entre as rochas da baía, estendidos, perdidos de agonia.

Os rugidos muito mais brandos e fracos, numa prece última. ..

Uma faca espetada no peito de gente como nós;

 as patas dianteiras seguram a cabeça,  passam pelo focinho ranhoso de choro e ali se acabam devagar, em sofrimento lento. 

Um qualquer dia, há-de chegar  peixe de fartura, parca temporada...nessa altura correm sôfregos a saciar a fome de tanto esperar...depois, a comida volta a faltar.

Gente como nós tem de assistir a isto, a fome e a morte por ali, sempre a rondar. 



segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Aos mais novos e não só…

 Por Luís C.

Hoje, vou deixar-te com este conselho. Quando pensares que já não tens valor ou que ninguém à tua volta te valoriza, lembra-te que uma garrafa num supermercado pode custar 30 cêntimos mas a mesma garrafa de água, num bar, pode custar 1 a 2 euros. No aeroporto ou mesmo dentro do avião, pode ter um valor de 4 a 5 euros. CONTINUAMOS A FALAR DA MESMA GARRAFA. 

MUITAS DAS VEZES TENS O VALOR TODO EM TI, SÓ NÃO ESTÁS COM PESSOAS QUE TE VALORIZEM O SUFICIENTE, PERANTE AQUILO QUE NECESSITAS SER VALORIZADO.

M.S. 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A mulher, o homem e a outra mulher

 

A estação de comboio e esta  hora encontra-se  deserta. Os painéis de azulejaria narram  episódios   emblemáticos de vidas passadas.  Do lado esquerdo, a bilheteira , no espaço contíguo, os sanitários. Em frente, a máquina  de vender chocolates.  Encostado à parede do meio, jaz um banco comprido, a criar ferrugem . Na parte dianteira, o portão fechado esconde a linha férrea.  Nas laterais da parede do meio, duas aberturas   largas e altas,  em arcadas, cuja parte cimeira forma meio arco. É por ali que passam os viajantes. Àquela hora, o último comboio partira. Na estação só estão três pessoas.  Duas mulheres, sentadas nas  extremidades do banco, a meio, um homem. No início,  calados,  apenas se escuta o respirar da noite e o murmurar dos materiais de que são feitas todas as coisas que os rodeiam. A certa altura, o homem,  solta um suspiro que revela impaciência, um estalinho com a língua no Palato. A mulher mais velha,  ajusta os óculos modernos e põe um ar sério.  A mulher mais nova, arqueia as sobrancelhas resignada, os olhos minúsculos mas muito atrentes atrás das lentes, usa óculos antigos e baratos. Agarra a bolsa com ambas as mãos. Rente aos pés, um saco grande. O homem, desabafa incrédulo e em voz alta, os olhos direcionados para a frente:

- Não me digam que vamos pernoitar aqui?!
A mulher mais velha:
- É o mais óbvio! 
- Que chatice! - de novo um estalo com a língua - enche as bochechas e dispara  uma baforada de ar sonora
- Que desespero! - expressa-se a mulher mais nova
-  Por acaso também não  está? - pergunta enervado
- Desesperada, não! Acontece a quem se atrasa, paciência ! - responde resignada
- Impávida e serena ?!- observa o homem
- Afinal, que quer que eu faça? Que me ponha aos gritos?  Que lhe bata?
- Me bater é que não! - defende-se cáustico
- Tenham calma, principalmente o senhor, não provoque! - a mais velha chama à razão
- Óptimo, assim  já  sei como vou ocupar o meu tempo!  - levanta-se e apalpa os bolsos das calças,  do casaco. Solta um grunhido a meia voz, dirige-se rapidamente para o trole,  escancara as aberturas exteriores. E volta a remexer:
- Hum?! Perdi-o! Grande porcaria! - visivelmente abatido, volta-se para as  mulheres- alguma de vocês tem telemóvel?
- O meu ficou sem bateria! - declara a mais velha
- Eu não tenho telemóvel! - esclarece a mais nova
- Não acredito, perco o comboio, o telemóvel,  que mais vou perder?!
- Nenhuma desgraça! - resmunga a mais nova
- Perder o único meio de transporte não é uma grande chatice?!  A minha mulher vai ficar preocupada por não chegar a horas. Os meus amigos facebookianos vão começar a imaginar as razões da minha ausência ! - outra baforada sonora de ar
Volta a questionar as  mulheres, se efetivamente possuem ou não o respetivo objecto. A resposta é a mesma. Como não se cala acerca da rede social:
- Fez casa no facebook? -  a mais nova pergunta entre dentes
Ele senta-se e volta a cabeça  para a esquerda :
- O que é que ela disse?
- Também não percebi.
Cai um silêncio estranho, subitamente nenhum se atreve a dizer mais nada. Após um intervalo:
- Sinto-me vazio, perdido! Este silêncio mexe comigo... - rompe queixoso
- É como se ficasse sem um membro, não é? -  a mais velha manifesta-se solidária 
- Também sente o mesmo em relação a não poder usar o seu ?
- Assim, tanto, não.  Um dos meus filhos que está a estudar em Londres , é uma loucura! O que eu passei...  A vida dele fazia-se através daquele retângulo, se falhasse,   tornava-se possesso!  Trepava paredes!
- Além de vício,  é doença ! - atalha a mais nova
-   Falhei como mãe  e o meu marido falhou como pai, essa e outras...
- Ainda tem consciência para admitir, eu também cometi os meus erros! - declara  a mais nova
- Não tenho problemas em colocar a mão no peito! e  perceber que nós,  mulheres, somos muito moles com os nossos filhos e os homens duros e frios, eles obedecem a quem? Por medo ou por respeito, mais medo que respeito,  estes extremismos, não fazem sentido - confessa a mais velha
- Não percebi o que quis dizer, desculpe lá . - responde a outra
- Não se preocupe com isso. Tem filhos?
- Tenho dois filhos - declara a mais nova
- O que fazem ?
- O rapaz  já saiu de casa, julgo que trabalha num escritório, não tenho a certeza, a rapariga vive comigo e com o pai,  é empregada de balcão  . - explica calmamente
- Não tem a certeza do seu filho?
- Ele só aparece em casa para pedir dinheiro e desaparece.

 Subitamente o homem ergue-se, estica  os braços, as pernas e boceja violentamente.
- Ei, que modos são esses? - interpela a mais velha
- A conversa está animada, por isso... as senhoras deviam aproveitar para fazer o mesmo. Estão aí,  travadas, enroladas...
- Tem razão,  mas não necessita ser tão expansivo!
- Acusa-me de má educação, ou receia que os meus vírus a atinjam?  - ri-se festivo
- E ainda se ri?! -  repreende a mais nova
- Se estamos aqui, testamos negativo...certo? - adianta o homem
- Certo! - aprova a mulher  -  também já levou a vacina?
- Já tomei a primeira dose e as reações não foram famosas.
- E  a senhora?- dirige-se à outra 
- Eu não tomo, tudo me faz mal! - justifica a mais nova 
- Somos apenas três entes, que a ironia do destino, juntou, o banco é comprido, o distanciamento, recomendável... portanto...- conclui o homem satisfeito
- Não estou tão optimista, nenhum de nós tem máscara posta.
- Se fomos testados! - atira o homem
- Não é bem assim! - a mulher mais velha  continua séria- toda esta questão causa-me  uma enorme  confusão, como é  possível,  termos as tecnologias mais sofisticadas e aperfeiçoadas e ainda recorrermos às  técnicas usadas durante a Peste Negra!? confinar toda a gente!? Que absurdo, o auge da Peste deu-se no século catorze! Estamos no século vinte e um?! Parar tudo!? Uma demonstração total da nossa falta de preparação, é  óbvio  que não estamos no bom caminho. E , olhem lá,  se continuarmos como até aqui,  não vai ser nada bom!
- Tem razão- o homem subscreve as palavras da mulher mais velha - e continua- surpreende-me  que cada vez mais pessoas aceitem  restrições  às suas liberdades e caladinhos.... 
 -Estou convencida que inúmeras pessoas  querem mudar, têm os valores corretos. Desejam cuidar dos outros e das gerações futuras mas não sabem como fazer ... não os deixam fazer, colocam barreiras a cada passo. Um dos  maiores desafios que enfrentamos, é  a nossa propria sobrevivência  no mundo e a nossa sobrevivência depende da forma como tratamos o planeta. Não é  só  sermos solidários com o vizinho do lado mas com o destino da humanidade, se repararem , há uma tendência,  encorajada por todos os governos,  a incitar  para que  nós confiemos neles e deixarmos as  responsabilidades nas suas mãos,  mas eles já demontraram nitidamente que não conseguem nos proteger de nada . Hoje, temos de ser nós a arranjar meios de proteção e defesa, por outro lado, somos obrigados a aceitar tudo o que nos impingem?! Aprendamos a nos libertar desta gente!
- É isso mesmo! - acrescenta o homem entusiasmado - a mulher prossegue-  toda a gente devia fazer algo superior, eu trato de um problema, o meu vizinho trata de outro, os meus amigos, cada um deles trata de um problema.  Sabe, é urgente uma maior envolvência por parte de todos.
- Eu até gosto de escutá-los - começa a mulher mais nova-  sabem, ser amigo, começa dentro de casa, amigo primeiro dos seus, depois dos outros.   Às vezes a família  ajuda e não é reconhecida, ajudar  para um certo número de pessoas, é   dar sem abrir a boca, como se fosse  a nossa obrigação!Querem sair de casa, saiam, depois venham de visita! 
- Refere-se ao seu filho?
- Ao meu filho e a outros tantos que andam por aí! Se não fosse a família...
- Eles querem o peixe pescado, cozinhado, pronto para mastigar e sem espinhas... acrescenta de novo a mais velha.
- O meu filho é diferente da irmã, ela ajuda em tudo, é muito nossa amiga, ensina-me coisas da escola e que vê na televisão. Ele tem vergonha da mãe, depois  bate à porta porque lhe falta dinheiro. 
- Vergonha da mãe?  - acrescenta  a mais velha chocada
- O único motivo é eu  ser bordadeira, picar o dedo na agulha,   apesar de mal paga, ainda o ajudo! - explica a mais nova.
- A sua filha nunca pensou em se meter num curso superior?
- Quando vai a uma loja, precisa de quem a atenda, não é assim? quando vai ao supermercado,  precisa de ajuda ? Mal de nós se não fosse essa gente, o varredor de rua, imagina o lixo de monte durante muito tempo? Como seria? A minha filha  falou-me se as máquinas que tratam das  águas  dos  esgotos avariassem e não houvesse quem arranjasse , morríamos todos, levantavam- se doenças perigosas. Acha que alguém pensa nesses homens ?  são como eu, mal pagos.

 Essa gente, que ninguém presta atenção,  que ninguém liga, eles são os que garantem a vida dos outros e são escravos e os mais mal pagos. Acha justo?
- Tem toda a razão! - comove-se sinceramente a mais velha
- A minha filha é digna, gosta do que faz, não explora a família, a mania que só vale quem tem curso superior! Mas os que têm mais estudos não mostram esse saber todo! Olhe o que disse há pouco? Ah! Tanta gente informada para quê? Estamos num beco sem saída. Veja o ambiente! A mesma coisa! Isto está de pernas para cima.  Uns ladrões de todo o tamanho. Na minha casa não há ladrões. Apesar de tudo, o meu filho, pede.  Somos pobres e honrados .  O meu marido também é como eu!  só tenho a quarta classe dos tempos antigos, a cabeça não deu para mais. Foram outros tempos! E agora? Como é? Mudou tanto para isto?!é o que se sabe e se vê?!
- A minha tia dizia; " Quem não rouba nem herda, não tem se não merda"- remata o homem.
- Não ouviu esta senhora? - acudiu a mais velha - estamos como estamos, em parte, por  pensarmos dessa forma!
O homem cala-se, mete as mãos nos bolsos do casaco, continua de pé, mexendo-se de um lado para o outro. 
- Olhe, eu sou professora reformada - confessa a mais velha fixando a mais nova nos olhos.
- Ah, sim? - a outra mostra-se curiosa
- Sim, reformei-me mais cedo, o ensino ficou um barco encalhado, ninguém conserta nada, é remendo aqui, ali, acolá... assim não se chega lá-  a mulher levanta-se entusiasmada pelo tema,  aproxima-se mais da outra, que permanece sentada.
- Fugiu dessa desgraça? - quis saber a mais nova  - e retoma a palavra- Deu-se mal?
- Não me dei mal, até tive muita sorte, consegui atingir o penúltimo escalão, um salário bom, para se chegar lá é uma chatice, enfim, é  para esquecer  esta estranha forma de avaliar professores.  Inventaram o projeto docente e relatórios.  Anda muita gente vaidosa, com o quê? A qualidade da educação  que se dá  às classes mais baixas  é a mais vulgar  possível,  para haver uma diferença entre as duas classes. Para que as elevadas permaneçam num nível superior,  fazendo crer às  menores que não conseguem atingir  o mesmo patamar. Agora, promove-se a mediocridade,  tornou-se   moda ter falta de inteligência,  ter falta de educação,  se estiverem atentos, hão-de perceber que tudo o que é medíocre,  aparece em grande número,  em todas as esferas sociais, refiro-me  à  arte, à  ciência,  à  religião,  à  política. Mas, quando falei que tive sorte, é mesmo verdade,no ensino,   passei por quase todos os cargos,  fui muito bajulada, também bajulei. Testemunhei situações com colegas, inadmissíveis,  passam-se coisas nas escolas que não é do conhecimento geral, autênticas  aberrações, envolve  professores, funcionários, pais, alunos, é uma vergonha, uma falta de ética, de consciência! Julga-se que já se viu tudo, nem pensar!
- Dizem que os professores faltam muito! - interrompe a mais nova , o homem fica parado, atento à mulher mais velha.
- Exatamente,  faltam muito! Os ambientes de trabalho são péssimos! Há professores muito  mal tratados, alguns são forçados a se afastarem e vão metendo atestados médicos psiquiátricos porque preferem estar em casa e outros adoecem mesmo. Não têm idade para sair do ativo e ficam reféns destas situações nojentas, desculpem-me a expressão.  Há  escolas que não passam de autênticas  ratoeiras. 
- Os professores doentes, ficam sem juízo? - interroga a mais nova 
- É isso que acabou de dizer! Sem juízo!  - justifica a outra
- Porque é que os professores não ficam numa escola, apenas quatro anos, terminado o prazo, seguem para outra ... não estou a dizer para fazerem grandes deslocações, até cerca de uma hora de carro, afinal praticamente todos eles conduzem . - lança  o homem
- Parece-me bem! Nada que eu já não tivesse pensado! Fiz mal, arrisquei pouco. Acomodei-me e fiquei parada no tempo, por muitas formações que se frequente, é saudável arejar, ver outras escolas, sentir outros sentires; cheiros, vozes, colegas, alunos...enfim, embruteci,  fartei e enfartei! 
- Coitado daquele que cai nas garras desses loucos! manicómios ! - observa  a mais nova
- Um covil de hipócritas!- acrescenta o homem 
- Sabe, recebemos ordens para trabalhar à frente de um ecrã,  com falhas grosseiras  de imagem e som, o ensino à distância! Querem habituaram-nos a isto? É o projeto do neocapitalismo, fazer com que a tecnologia avance cada vez mais, a inteligência artificial,  a digitalização generalizada, a 5G. Sempre  mais máquinas...E os laços humanos? manter as pessoas  distantes, sequestradas  por ecrãs  e pela Internet,  sequestrados  por essas ondas 5G ou outra invenção qualquer.  A intenção é isolar-nos uns dos outros! - continua a mais velha
- E já são cinco horas! - o homem consulta o relógio
- Ainda? - a mais nova e endireita os óculos desiludida
- Já estivemos mais longe - acrescenta o homem e finalmente senta-se, e cruza os braços
A mulher mais nova também cruza os braços e desata:

- A senhora deve receber uma boa reforma, não? Veste bem, parece uma rainha! - comenta risonha, a mais nova
O homem olha em frente e sorri também. 
- Confesso que em termos financeiros, não  há problemas, tenho bons recursos, cresci com eles. Tive sorte, o meu casamento acabou mas conheci um senhor pelo Facebook e agora vou vê-lo ao vivo e a cores.
- Tenha cuidado com essa gente! -adverte a mais nova
- Já  falo com ele há muito tempo, agrada-me o género e o meu género agrada-lhe!
- Não quer experimentar comigo? - o homem  tenta sua sorte
- O senhor não é casado?- lembra a mais nova
- Mal casado! - responde ligeiramente irritado 
- É bem mais jovem do que eu ! - observa a mais velha
- Não gosta de homens mais novos? - atira com um sorriso maroto
- Tem boa presença! - a mais velha comprova -  Mas não o conheço!
- Se me der uma oportunidade...
- Posso dar... - declara com alguma incerteza - e sequer acha-me interessante, faço o seu tipo?
- Já tinha reparado em si...
- A sério?!
A mulher mais nova, olha para um e para o outro com um ar reprovador. 
Pouco a pouco cai um silêncio estranho,  os três calados, a mulher mais nova, acaba por fechar os olhos. Entretanto, o comboio chega.
O homem começa a fazer olhinhos à mulher mais velha. Ela fica constrangida , porém,  demonstra que lhe agrada. O homem de  quando em vez , espreita a outra para se certificar que dormita ou simula.
- Assim podemos nos entender sem esta senhora incomodar- diz o homem
- Coitada, deve estar cansada . Que quer dizer?
- Quando descermos vou acompanhá-la! Esqueça o outro ! Quantos dias ia ficar com ele?
- Cinco dias!
- Óptimo,  passe-os comigo! - consegue ser convincente
- Ai, estou confusa! O outro espera-me, não é uma atitude digna da minha parte!
- Isso passa, invente uma desculpa,  já sabe, vou consigo! Certo?
- Sim, certo! - concorda meio desajeitada
A mulher mais velha levanta-se pensativa, o homem também,  ficam próximos, ela afasta-se.
- Que se passa? Tem medo de mim ?
- Não se trata disso! O confinamento, o distanciamento, repetido sem cessar, está tudo dentro da minha cabeça...o outro senhor , o outro senhor que me aguarda...que falta de respeito e de palavra!não me sinto confortável nesta posição...
- Ligue-lhe e arranje uma situação impossível...
-Calma, as coisas não podem ser no seu timing! 
- Então vamos dar tempo... para começar uma amizade! nem pense em fugir de mim! Declara carinhoso e passa um braço pela cintura da mulher -Gosta do toque ? - pergunta ele baixinho
- Gosto! -ela responde baixinho
-  O ritmo é  o aconselhável por agora! - acrescenta o homem
- Agora sente-se no seu lugar - pede branda
- Com certeza! - alisa o bigode louro recortado sobre o lábio superior e ajeita o cabelo lambido da mesma cor.
Depois, ficam calados e aos poucos lançam olhares mútuos , ora  sérios ora sorridentes.  A mulher mais nova,  acorda atordoada, foi comprar um chocolate, a mais velha procurou o WC. O homem fica sozinho.
 Anunciam a hora de embarque.  Os poucos  viajantes vão entrando,  o homem segura imediatamente o braço da mais velha e conduz  a mesma para dentro do comboio.
- A outra senhora onde está? 
-Acredita que ela tem telemóvel e não  me emprestou?!
- Como descobriu?
- Quando foi à máquina dos chocolates, tirou o porta moedas da bolsa e deixou-a cair, nisto,  o telemóvel sai.... eu agarrei e vi que estava ativo e tinha bateria, ela ficou atrapalhada.
- Ela não vem?! Esqueça isso,   ela não tinha que emprestar o  telemóvel a um desconhecido.  É um objeto pessoal. Que lhe aconteceu? Não a vejo!
- Vai aprender ! - sussurra  o homem
- Que falou?!
- Arrefeceu!
- Faz fresco! Mas está agradável,  temos os nossos agasalhos, dá sempre jeito!
- Muito mais agradável com a sua presença !
A mulher sorri :
- Vá chamar a outra senhora!
- Espere, vou chamar!
Volta sozinho.
-Então? ! -  exclama pasmada
- Ela  recebeu uma chamada e disse que afinal vai de boleia.
- Tem a certeza disso? Nem me despedi dela, nem fiquei com o contato...simpatizei com a sua simplicidade e franqueza, que pena!
- O comboio já vai partir! - anuncia o homem- e escuta-se o som de saída 
A mulher mais velha ainda espreita pela janela, volta o pescoço e nem sinal da outra.
Na estação,  a mulher mais nova percorre o recinto numa aflição:
-Bom dia, que procura? - pergunta o homem da belheteira
- A minha bolsa! Meu Deus, perdi o comboio! E agora? Tenho  toalhas para entregar amanhã. A minha bolsa?! - pronuncia quase a chorar 
- A sua bolsa?  O  indivíduo que estava aqui com as senhoras meteu debaixo do banco! 
- O meu filho?! 














terça-feira, 10 de agosto de 2021

Recortes instantâneos

“ É  quando
te pedem para desistires
que eles têm mais medo
que continues a tentar”
                           T. A. 
Isto de incomodar, é tramado! Ninguém atira pedras a uma figueira seca. 

Maria Silva 

domingo, 25 de julho de 2021

Há verde no deserto

 

Chora, chora muito, chora tudo
sem medo ou receio, nem outras ditadas intolerâncias
Escancara as aberturas da comporta
Desaperta as fivelas dessas presilhas
 que te enlaçam  à coberta do navio;
A infância traída
A mocidade perdida
Mas estás aqui!
O primeiro amor, puro engano
talvez nem chegou a sê-lo
O segundo amor, nem sei que história...
O terceiro amor, parecia, prometia
Deixa ir!
O coração  desespera  por outro dia
O melhor amigo voltou as costas
O segundo amigo nem  deu a mão
O terceiro amigo confiaste e perdeste o chão
Abraça o fiel cão
Acertaste nas viagens, bons passos
Já te deslumbraste!
Agarraste nos livros, algumas travessias
Há em ti, dons preciosos, não te desgastes
Um dia, quem sabe... tem calma
Tens a sorte de ter uma prima
Outros que têm o teu sangue, o teu apelido
são os primeiros
a te atiçarem palavras afiadas
punhais, enxofre até ao tutano
Sempre angustiam
Essas feridas nuncas mais vão cicatrizar
Vale o bom humor ! Essa capacidade,  mais uma!
 Não vivas à  sombra de um mundo errado
Essa justiça que te corre nos lábios
não a percas, deixa os outros mentirem
Queixas-te em voz baixa
protestas em voz alta
Outras injustiças virão
Tudo reunido, é a luz do universo a tremer os queixos
Agora, vai correr, sobe a serra
De quando em vez, solta uns brados
Uns quantos guinchos, uns quantos urros
Regressa com a limpidez dos cristais
E olha, tens sorte,  os braços da tua prima

terça-feira, 13 de julho de 2021

Recortes instantâneos

 Li por mero acaso a notícia; trata-se de uma figura pública, do sexo masculino, traído pelo  respetivo  elemento feminino, encontrado em circunstâncias íntimas , obviamente,  a parte masculina pediu a separação mas por vingança, a parte feminina,  resolveu denunciar a figura pública por  violência doméstica.  Tornou a situação pública e   levou  ao conhecimento das autoridades,  consequentemente  , a já  citada figura pública, teve de usar pulseira eletrônica.  O tribunal arquivou o processo por falta de provas. E, segundo o que espreitei ,  neste caso, nunca houve cenas de agressão física ou verbal. 

Note-se que estas " brincadeiras / mentiras " de muito mau gosto podem destruir por  completo a vida de  alguém.  

 De forma inviesada reparei num comentário ,  de um leitor que resolveu expressar-se da seguinte forma:

" Quando as cabras  deixam de mamar, por vezes tornam-se agressivas. Conheço várias assim. Se o processo foi arquivado, porque é que o tribunal não condena uma cabra difamatória?  Não seria correto? Mas não. Hoje, as cabras têm tudo ao seu lado; bons pastos, boas rações, boa palha e até pelos vistos, a justiça.  " 

Maria Silva 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Recortes instantâneos

 Quantas vezes negas Cristo e nem te dás  por isso!? Na família, no trabalho, no circulo de amigos, na  vizinhança!  Pedro, o Apóstolo,  negou-O três vezes, em pouco espaço de tempo...  Judas entregou-o por dinheiro, não é diferente do que se passa hoje. Uns traem por dinheiro, por cargos, por favores, para fazer parte de determinado círculo de pessoas com postura social vantajosa, é importante se fazer acompanhar de certos núcleos sociais.  Depois disto, será que ainda existe consciência ou o filtro tornou-se obsoleto? Ou nunca o possuiste...sem freio, fica complicado! ou perdeste-o e nada a fazer...

Maria Silva