Tive de apressar o passo para conseguir apanhar o trinta e um A, foi mesmo à tangente, a meio da manhã, havia sinais de cansaço nos meus olhos, até o coração pulava na pressa .A sorte é que outras viaturas desciam à frente em compasso lento e eu pude me antecipar. É uma rua muito movimentada, com estabelecimentos comercais contíguos; lavandaria , farmácia, Bazar, onde consta artigos de toda a espécie, cabeleireiro, dois mini supermercados, uma padaria, uma florista, uma frutaria, um café. Há espaços para cargas e descargas. Os estacionamentos facilitam a vida dos condutores, desde que não sejam àquelas horas que correm todos para o mesmo. E a rua torna-se infernal. Os que apenas passam, os que procuram um estacionamento livre, os que despachados desejam sair dali à pressa. Os transportes de mercadoria que precisam de espaço para a descarga, obras na estrada. Cria-se um ambiente caótico, com o acréscimo da falta de cortesia e simpatia de condutores para condutores . É tudo resolvido na base do azedume, dos gestos intolerantes, palavrões feios e apitadelas desesperadas.
Entretanto, sento-me a correr ao lado de um indivíduo porque o motorista colocou o autocarro em andamento e tive de me segurar imediatamente.
Ajeito-me na bancada e seguro-me ao varão perpendicular à cadeira, na vertical, as curvas apertadas e a descida desvairada.
E lá vem a minha Teresinha , sorriso aberto, espontâneo, profere o meu nome alto em tom de brincadeira, olhos fitos em mim. Mamacita di mi coracón digo eu e minha Teresinha solta uma gargalhada. Ai, mãe, que saudades ! A minha e a tua existência unidas, desde sempre... e para sempre. Quando te visito no cemitério , não consigo, é mais forte que eu. Torno-me inconsolável. Imagino a tua presença lá em baixo, dentro da última gaveta? tinham-me dito que seria a primeira, que desconsolo! quieta, imóvel, serena, fresca e perfumada, pernas brancas como a neve, o rosto sem rugas, sem manchas, a não ser as de expressão. Levaste a idade bem conservada. E eu a julgar que ficarias por cá mais uns seis anos. Não era a unica a prever, havia mais gente. Quando um dia, estando a teu lado, baixei-me e cochichei ao teu ouvido que chegarias até aos cem , tu tomaste-me muito a sério e numa exclamação; oh! Não! Pareceu engraçada a tua expressão, como se o que eu tinha acabado de afirmar , iria mesmo concretizar-se. Atribuiste-me um poder que eu não possuía. Tinhas plena noção e consciência que cem anos também seriam demais. A certa altura, viraste-te para mim, novamente séria e confessaste ; não posso mais, também quedei -me séria, calada, triste e fiz-te um afago. Que dizer? Tu sentias que eu te compreendia e valorizava as indisposiçoes, aflições e dores. Levava-te a sério, sem risos, nem brincadeiras estúpidas. Tratava-te como uma pessoa adulta merece, um bebé é diferente ou até uma criança. Saibamos diferenciar as idades e o tratamento não pode ser idêntico.
Vem à memoria aquela frase dita de forma grave, o assunto assim o merecia ; E ninguém vem contar nada, e, aquela pessoa desaparece e nunca mais se sabe dela,e , sempre pensativa; grande é o poder de Deus. É mãe, nunca imaginei que te perderia desta forma, não assim! O pai assim se foi, a tia que viveu connosco desde que vim ao mundo, a ida pelo mesmo caminho; foi num sábado, olhámo-nos mutuamente, olhos vivos! Fiz movimentos com o corpo e os olhos bem abertos seguiram os meus sem pestanejar. No domingo ao final da tarde, sem nenhuma explicação, ao telemóvel foi comunicado o falecimento. Mais tarde alguém disse que tinha sido devido à reação de um antibiótico que lhe rasgara o intestino! Mãe, quando confessavas entusiasmada, se eu morresse naquela hora, não sentia nada, era como se estivesse a dormir... pobre mãe, foi tão diferente aquilo que observei In loco. Como eu desejava essa morte para ti, serena , tranquila, sem sofrimento, sem interferências. Um momento em família, só nosso, privado! Revolta-me mas revolta-me sobejamente! não entendo as pessoas quando dizem ; a sua mãe já foi, não vale a pena pensar mais nisso! Siga a sua vida. Já fez a sua parte. E o luto? O tempo do luto? De entristecer, de chorar, de recordar, de mergulhar em águas turvas e escuras, descer para poder voltar, qual fenix renascida. Cada um tem o seu tempo, um tempo só seu. Esse tempo pode ser para o resto da vida. Há quem vá ao cemitério, depositar o corpo da pessoa falecida e imediatamente a seguir esfrega as mãos, como fez Pilatos, enquanto foi viva, fiz, agora acabou, já se fala em heranças, em contas bancárias, em dinheiro, em terrenos. E, ainda há aqueles que aproveitam o momento do funeral para cumprimentar os conhecidos , os amigos, visto assim, até esquecem onde estão, um piquenique? Um encontro de amigos? Uma descontração invulgar em nada a condizer com o momento. Que sentimento!? Um funeral com pompa e circunstância, para os presentes saberem que a família é de posses e uma campa rica, decorada com flores artificiais, as flores naturais implicam muito trabalho e hoje não há paciência para coisa nenhuma, é um tédio, obriga a idas periódicas, lavar jarras, deixar água fresca, mudar de flores. Ao morto que interessa isso? Já está morto mesmo ! Estranha forma de ver, quer seja a morte, não se sabe lidar com nada. Mesmo nada. Os cemitérios estão vazios, só habitam mortos, abandonados porque as famílias esquecem rapidamente as boas intenções de visitar os seus entes queridos. Não se honra a pessoa falecida, nem se dignifica os que já partiram. É triste, olhar e ver um mar de cruzes. Foram despejados ali, depois, a vida continua, já foi. Há tempo para passear, ir até à praia dar uns mergulhos, espreitar frequentemente o telemóvel, falar com fulano e sicrano. Distrair-se no café e ficar horas mergulhados nas cervejolas e conversas banais sobre gajas e gajos . É a solidão dos nossos mortos. Que insensibilidade. Eu não sei nem ninguém sabe se quando fazemos a nossa visita, há mais alguém que vem ali para ser reconfortado, para matar saudades. No entanto, poucos se importam com isso.
O autocarro parou , cheguei ao meu destino.