Camila primeiro cumprimenta Maria Antónia
que está a abrir a janela do primeiro andar
do edifício onde habita, e da janela, em voz alta:
- Camila, é você?! Venha, entre!
A outra desce o passeio e atravessa a rua deserta àquela
hora.
Antónia abre a porta e os braços acolhedores e calorosos:
- Que faz por cá?! – o sorriso é amplo e luminoso, sem
nenhum fingimento.
- Saudades vossas! - molda um sorriso idêntico
- Que bom ! Esteja à vontade! – continua hospitaleira -
já conhece
a casa, vai-me
desculpar querida, - a mão delicada,
pousada sobre o ombro da sua interlocutora -
sabe, estou muito atrasada. Havemos de colocar a conversa em dia…quero
saber de si.
- A Valentina não está? – a interrogação é imediata
- Não está querida, aguarde só um bocadinho …escassos
minutos,
foi ali à esquina e está mesmo a chegar - ri-se e após
cumprimentarem-se apressadamente , Maria agarra delicadamente a écharpe e enrola
ao pescoço, segura na bolsa de mão e sai
porta fora, enquanto se escuta a cadência aflita dos saltos altos a baterem na
calçada em direção à garagem.
Camila consulta impaciente o relógio de pulso, só havia passado
cinco minutos desde a saída de Antónia.
Um nervoso miudinho asfixia-a, põe-se de pé, roda, mal
consegue observar à sua volta, nada lhe interessa.
Volta a sentar-se,
até o anel aperta demasiado o dedo, num ímpeto, retira-o e coloca-o sobre o
tampo da mesa de vidro.
A porta abre-se de rompante, Camila sobressalta-se e
torna-se
apreensiva, engole em seco e espera que a outra surja.
- Maria! – chama a recém chegada e ao entrar na sala
depara-se com a presença de Camila.
Há uma suspensão súbita, ambas as mulheres escutam apenas
os batimentos cardíacos. Encaram-se mudas de espanto, de
pé:
- Valentina, Maria Antónia convidou-me a entrar e saiu a
correr.
- Que vieste fazer a sul? – desata indiscreta e
indiferente
- Participar numa formação, começou sexta feira e acabou
ao início
desta tarde, amanhã volto para o meu norte.
- Com mais conhecimentos? – frieza e tom inexpressivo
- Em princípio é para esse efeito, neste caso até foi
interessante.
- E a tua Eugénia, como está? – continua calma e
desinteressada
- Julgo que se encontra bem…da última vez que falamos,
não
se lamuriou de nada.
- Não estou a perceber, escapou-me alguma coisa?- o tom ligeiramente
inflamado
- Escapou, nem podias saber, tu e eu cortámos relações há
dez anos
É que já não vivo
com a Eugénia!
- Separaram-se?! – o assombro é grande
- Presumi que terias essa reação! – profere nervosa
- Inacreditável, a convicção com que sopravas aos quatro
ventos que envelheceriam lado a lado, fazendo chazinhos uma à outra…tecendo
mantas em tricot para se aquecerem mutuamente…
o vosso amor seria até que a morte as separasse…- ironiza
descaradamente
- Sonhava com esse amor, no entanto, como tudo, gastou-se
como
eu jamais supus.
- Há quanto tempo …?
- Ano e meio e mantenho-me sozinha, decidi parar até me
cansar.
Camila cala-se de repente e com mais coragem:
E tu, Valentina? Depois de nós? soube de uns casos teus e
sempre assentaste?
- Não assentei, namorei dois anos, terminou e depois mais
nada até hoje. Aluguei o meu apartamento e passei a viver aqui com a minha
irmã.
- A tua irmã casou? – arrisca nova pergunta.
- Casou com um oftalmologista, divorciou-se
oito anos depois, agora namora com um comissário de voo.
- Vive a vida dela e é feliz. – acrescenta carinhosamente.
- Tudo indica que sim! – responde convicta
- Eu também era feliz contigo! Mas quiseste colocar um
ponto final…
Os olhos de Valentina voam até ao teto, desagradada e
suspira interiormente
- O que nós tínhamos era único- começa camila lentamente
– Um amor verdadeiro, transparente como um espelho, peixe fresco a saltar da
rede para o mar, numa alegria imensa- enquanto disserta, coloca os olhos nos da
outra, que permanece calada e imóvel- o nosso amor cúmplice, inesquecível. Amor
amigo, muito amigo, sem traições, voltaria lá atrás, sem desmerecer o que tive
com a Eugénia, logicamente…No nosso amor havia muita líbido, a mestria ficava a
teu cargo, sufocava de tanto prazer, de tal forma que parecia iminente uma
síncope…os meus orgasmos não cessavam; autênticos vulcões em erupção. A causa
desta manifestação; tu, o teu jeito.
As tuas massagens sexuais que aprendias nos filmes porno-
Camila fez uma breve pausa para respirar e rir, aliviar a tensão do início –
Impossível não acender; construías todos aqueles cenários
com uma ligeireza e uma imaginação prodígio, quando me lembro; no autocarro;
com gente nua que copulava em pares despudoradamente, no automóvel éramos
sempre acompanhadas de alguém, no elevador, sexo em grupo, ménage à trois,
homens que me queriam, que me seduziam… incrível, fantasias deixava-as contigo
e como se não bastasse, o uso da linguagem obscena, tudo dito com carinho… e as
visitas a lojas Sex Shop, os brinquedos foram atirados fora, a Eugénia não
alinhava nisso e eu respeitei. Foste a melhor companheira, a melhor parceira…
- Pena que eu não possa dizer o mesmo, não é? – o rosto seco
- Que se passa, Valentina?- o riso esmorece
- Que se passa?! – repete e acentua
- Tu e as tuas paranóias? – o rosto contrai
- Ai Camila, os maus tratos?
- Que maus tratos?! – exclama agoniada
- Já te avivo a memória; ser ridicularizada em privado e
em público, ser repreendida em privado e em público, ser desvalorizada em
privado e em público, ser humilhada em privado e em público, ríres-te de mim!
Com que autoritarismo davas ordens!
- Obrigaste-me a ser dura contigo, de culinária nada
percebias, nem dominavas, completamente despreparada para uma vida de casal e
isso arrefeceu-me. Comecei a desatinar com a situação! Sentia-me frustrada!
Acrescento, não aceito que foste vítima de maus tratos, exageras!
- Maus tratos verbais! – refiro-me a isso mesmo
- Vir do Norte ao Sul só para estarmos juntas; fins de
semana, feriados, férias e eu
ambicionava viajar para outros pontos do globo como fiz com a Eugenia. Fomos ao
México, ao Brasil…mas ela dentro de casa é outra história, tem uma desenvoltura
que não tens.
Ela abdicou de certos confortos em proveito das viagens
ao estrangeiro, pagar canais de TV para ver séries? pagar NET? Que absurdo!
Conversamos e chegamos à conclusão que uns em vantagem de outros. Há
prioridades, Valentina!
-Ela é ela, eu sou eu! Nunca te fiz sofrer! Até
implicavas com os meus olhos tristes…! – expressa-se alto.
- A tua forma de agir enervava qualquer um!- arqueia as
sobrancelhas, irritada
- Nunca me compreendeste e os constantes amuos?
- Ficava sentida, é humano! – responde zangada
- Quem amua são as crianças, por tudo e por nada; um amuo
de dias?! Que paciência para aturar semelhante coisa! – o tom seguro, firme e
aborrecido
- Olha, Valentina, tens as tuas razões, eu tenho as minhas!
Provavelmente fiz mal em ter entrado! – profere ofendida
- Qual foi o objetivo desta visita ? – novamente gélida
- Pensei …pensei que podíamos reatar! – conclui
desanimada
- Como?! com tanta divergência pelo meio e eu ainda moro
a Sul e tu a Norte ou esqueceste esse pormenor?
- Talvez seja a
solidão a falar mais alto e eu sei que tu tens qualidades que a maioria não
possui…
- Mas infelizmente não respeitas os meus limites… eu não
correspondo ao modelo que procuras. Já constatamos isso lá atrás!
- Ainda me amas? – pergunta desolada
- Não sei! Dez anos depois, os antagonismos, não sei!
Depois de tudo…não sei! – a voz alterada
Camila ajusta a bolsa no ombro e baixa os olhos,
encaminha-se para a saída, ao passar pela outra, faz uma breve paragem e encaram-se
ambas com os olhos rasos de água. Valentina vencida, puxa-a para si sem dizer mais
nada. Os braços de Camila correm a cintura da outra e percorrem as costas.
Valentina segura a cabeça de Camila entre
as mãos e beija-a sofregamente; um beijo longo e profundo, escuta um soluço descer a garganta de Camila, logo de seguida,
larga-a e deixa-a sair sem acrescentar nada. Deseja detê-la … todavia, não pode,
nem deve.
Cá fora, Camila, recompõe-se, morde o lábio inferior,
limpa as lágrimas do rosto e quando mexe as mãos, apercebe-se da falta do anel.
Hesita, volta-se para a porta, sente medo, ainda assim, toca a campainha.
PN