quarta-feira, 6 de março de 2019

O reencontro



Camila primeiro cumprimenta Maria Antónia
que está a abrir a janela do primeiro andar
do edifício onde habita, e da janela, em voz alta:
- Camila, é você?! Venha, entre!
A outra desce o passeio e atravessa a rua deserta àquela hora.
Antónia abre a porta e os braços acolhedores e calorosos:
- Que faz por cá?! – o sorriso é amplo e luminoso, sem nenhum fingimento.
- Saudades vossas! - molda um sorriso idêntico
- Que bom ! Esteja à vontade! – continua hospitaleira - já conhece
 a casa, vai-me desculpar  querida, - a mão delicada, pousada sobre o ombro da sua interlocutora -  sabe, estou muito atrasada. Havemos de colocar a conversa em dia…quero saber de si.
- A Valentina não está? – a interrogação é imediata
- Não está querida, aguarde só um bocadinho …escassos minutos,  
foi ali à esquina e está mesmo a chegar - ri-se e após cumprimentarem-se apressadamente , Maria agarra delicadamente a écharpe e enrola  ao pescoço, segura na bolsa de mão e sai porta fora, enquanto se escuta a cadência aflita dos saltos altos a baterem na calçada em direção à garagem.
Camila consulta impaciente o relógio de pulso, só havia passado cinco minutos desde a saída de Antónia.
Um nervoso miudinho asfixia-a, põe-se de pé, roda, mal consegue observar à sua volta, nada lhe interessa.
 Volta a sentar-se, até o anel aperta demasiado o dedo, num ímpeto, retira-o e coloca-o sobre o tampo da mesa de vidro.
A porta abre-se de rompante, Camila sobressalta-se e torna-se
apreensiva, engole em seco e espera que a outra surja.
- Maria! – chama a recém chegada e ao entrar na sala
depara-se com a presença de Camila.
Há uma suspensão súbita, ambas as mulheres escutam apenas
os batimentos cardíacos. Encaram-se mudas de espanto, de pé:
- Valentina, Maria Antónia convidou-me a entrar e saiu a correr.
- Que vieste fazer a sul? – desata indiscreta e indiferente
- Participar numa formação, começou sexta feira e acabou ao início
desta tarde, amanhã volto para o meu norte.
- Com mais conhecimentos? – frieza e tom inexpressivo
- Em princípio é para esse efeito, neste caso até foi interessante.
- E a tua Eugénia, como está? – continua calma e desinteressada
- Julgo que se encontra bem…da última vez que falamos, não
se lamuriou de nada.
- Não estou a perceber, escapou-me alguma coisa?- o tom ligeiramente inflamado
- Escapou, nem podias saber, tu e eu cortámos relações há dez anos
 É que já não vivo com a Eugénia!
- Separaram-se?! – o assombro é grande
- Presumi que terias essa reação! – profere nervosa
- Inacreditável, a convicção com que sopravas aos quatro ventos que envelheceriam lado a lado, fazendo chazinhos uma à outra…tecendo mantas em tricot para se aquecerem mutuamente…
o vosso amor seria até que a morte as separasse…- ironiza descaradamente
- Sonhava com esse amor, no entanto, como tudo, gastou-se como
eu jamais supus.
- Há quanto tempo …?
- Ano e meio e mantenho-me sozinha, decidi parar até me cansar.
Camila cala-se de repente e com mais coragem:
E tu, Valentina? Depois de nós? soube de uns casos teus e sempre assentaste?
- Não assentei, namorei dois anos, terminou e depois mais nada até hoje. Aluguei o meu apartamento e passei a viver aqui com a minha irmã.
- A tua irmã casou? – arrisca nova pergunta.
- Casou com um oftalmologista, divorciou-se
oito anos depois, agora namora com um comissário de voo.
- Vive a vida dela e é feliz. – acrescenta carinhosamente.
- Tudo indica que sim! – responde convicta
- Eu também era feliz contigo! Mas quiseste colocar um ponto final…
Os olhos de Valentina voam até ao teto, desagradada e suspira interiormente
- O que nós tínhamos era único- começa camila lentamente – Um amor verdadeiro, transparente como um espelho, peixe fresco a saltar da rede para o mar, numa alegria imensa- enquanto disserta, coloca os olhos nos da outra, que permanece calada e imóvel- o nosso amor cúmplice, inesquecível. Amor amigo, muito amigo, sem traições, voltaria lá atrás, sem desmerecer o que tive com a Eugénia, logicamente…No nosso amor havia muita líbido, a mestria ficava a teu cargo, sufocava de tanto prazer, de tal forma que parecia iminente uma síncope…os meus orgasmos não cessavam; autênticos vulcões em erupção. A causa desta manifestação; tu, o teu jeito.
As tuas massagens sexuais que aprendias nos filmes porno- Camila fez uma breve pausa para respirar e rir, aliviar a tensão do início –
Impossível não acender; construías todos aqueles cenários com uma ligeireza e uma imaginação prodígio, quando me lembro; no autocarro; com gente nua que copulava em pares despudoradamente, no automóvel éramos sempre acompanhadas de alguém, no elevador, sexo em grupo, ménage à trois, homens que me queriam, que me seduziam… incrível, fantasias deixava-as contigo e como se não bastasse, o uso da linguagem obscena, tudo dito com carinho… e as visitas a lojas Sex Shop, os brinquedos foram atirados fora, a Eugénia não alinhava nisso e eu respeitei. Foste a melhor companheira, a melhor parceira…
- Pena que eu não possa dizer o mesmo, não é? – o rosto seco
- Que se passa, Valentina?- o riso esmorece
- Que se passa?! – repete e acentua
- Tu e as tuas paranóias? – o rosto contrai
- Ai Camila, os maus tratos?
- Que maus  tratos?! – exclama agoniada
- Já te avivo a memória; ser ridicularizada em privado e em público, ser repreendida em privado e em público, ser desvalorizada em privado e em público, ser humilhada em privado e em público, ríres-te de mim! Com que autoritarismo davas ordens!
- Obrigaste-me a ser dura contigo, de culinária nada percebias, nem dominavas, completamente despreparada para uma vida de casal e isso arrefeceu-me. Comecei a desatinar com a situação! Sentia-me frustrada! Acrescento, não aceito que foste vítima de maus tratos, exageras!
- Maus tratos verbais! – refiro-me a isso mesmo
- Vir do Norte ao Sul só para estarmos juntas; fins de semana, feriados, férias  e eu ambicionava viajar para outros pontos do globo como fiz com a Eugenia. Fomos ao México, ao Brasil…mas ela dentro de casa é outra história, tem uma desenvoltura que não tens.
Ela abdicou de certos confortos em proveito das viagens ao estrangeiro, pagar canais de TV para ver séries? pagar NET? Que absurdo! Conversamos e chegamos à conclusão que uns em vantagem de outros. Há prioridades, Valentina!
-Ela é ela, eu sou eu! Nunca te fiz sofrer! Até implicavas com os meus olhos tristes…! – expressa-se alto.
- A tua forma de agir enervava qualquer um!- arqueia as sobrancelhas, irritada
- Nunca me compreendeste e os constantes amuos?
- Ficava sentida, é humano! – responde zangada
- Quem amua são as crianças, por tudo e por nada; um amuo de dias?! Que paciência para aturar semelhante coisa! – o tom seguro, firme e aborrecido
- Olha, Valentina, tens as tuas razões, eu tenho as minhas! Provavelmente fiz mal em ter entrado! – profere ofendida
- Qual foi o objetivo desta visita ? – novamente gélida
- Pensei …pensei que podíamos reatar! – conclui desanimada
- Como?! com tanta divergência pelo meio e eu ainda moro a Sul e tu a Norte ou esqueceste esse pormenor?
- Talvez seja  a solidão a falar mais alto e eu sei que tu tens qualidades que a maioria não possui…
- Mas infelizmente não respeitas os meus limites… eu não correspondo ao modelo que procuras. Já constatamos isso lá atrás!
- Ainda me amas? – pergunta desolada
- Não sei! Dez anos depois, os antagonismos, não sei! Depois de tudo…não sei! – a voz alterada
Camila ajusta a bolsa no ombro e baixa os olhos, encaminha-se para a saída, ao passar pela outra, faz uma breve paragem e encaram-se ambas com os olhos rasos de água. Valentina vencida, puxa-a para si sem dizer mais nada. Os braços de Camila correm a cintura da outra e percorrem as costas. Valentina  segura a cabeça de Camila entre as mãos e beija-a sofregamente; um beijo longo e profundo, escuta um soluço  descer a garganta de Camila, logo de seguida, larga-a e deixa-a sair sem acrescentar nada. Deseja detê-la … todavia, não pode, nem deve.
Cá fora, Camila, recompõe-se, morde o lábio inferior, limpa as lágrimas do rosto e quando mexe as mãos, apercebe-se da falta do anel. Hesita, volta-se para a porta, sente medo, ainda assim, toca a campainha.

PN

     








sábado, 2 de fevereiro de 2019

A chamada telefónica


A manhã, fruto de um parto prematuro
decidiu soltar-se, qual égua, a pular do bucho da mãe;
Uma criança traquina, fios de oiro a saltitar, na aragem fresca matutina;
correu ruas, pintou paredes, trepou telhados.
Havia aromas suaves a entrelaçarem-se uns nos outros;
Inebriantes e festivos.
Subitamente a porta de uma cabine telefónica abriu-se,
um homem entrou
retirou o auscultador do gancho
e digitou o número
- Sim? – atendeu uma voz feminina
- Hum? É a Graça? – a voz denotou alguma certeza
- Não é não!
- Importa-se de conferir o número?
- Diga.
- .. … .. ..
- Efetivamente é o meu!
- Ai estas linhas…andam a brincar comigo. Já é a terceira vez que tento,
 primeiro foi a voz de uma criança, depois a de um homem e agora a sua…
-Então desista de tentar!
- Mais uma razão para tentar conhecê-la melhor! – exclamou contente
- Perguntou-me se eu também queria?
Ou esse interesse todo é porque o meu tom de voz é semelhante ao dessa senhora para quem tentou ligar?
- Pode ser… não sei qual a sua disponibilidade, se estou a incomodar…. 
- Por acaso, hoje folgo…por isso…
- Apresento-me; Sou o Marco, locutor de rádio – adiantou-se rapidamente
- Lídia.
- Bonito nome, sim senhora, e que faz a nível profissional?
- Balconista numa loja de roupa.
- Como sou atrevido, arrisco mais uma, a Lídia é de Lisboa?
-Sim e você?
- Idem! Até podíamos marcar um café, que tal?
- Demasiado apressadinho para o meu gosto…- respondeu firme
- Ok, ok, ok! Esqueça. Olhe, tenho quarenta anos e a Lídia? - continuou impaciente.
- Trinta e cinco! – respondeu lacónica
- Quer se descrever fisicamente? – disparou de rajada
- Que absurdo! Porque o faria?
- Gostaria de ficar com uma ideia da pessoa que é, faço mal?
- Nem bem, nem mal. Qual o sentido? Importa?
- Importa, antes que eu delire e faça mil esboços a seu respeito… a Lídia ajuda-me
a construir o seu retrato? Antecipo-me; Eu; estatura alta, magro, moreno, olhos verdes,
cabelo escuro aos caracóis  médio, barba rala, descontraído, adoro o preto. Vê como é fácil!
- Por essa descrição… só lhe falta a guitarra para ser cantor rock – observou com algum louvor
- Posso considerar um elogio? – mostrou-se vaidoso
- Se quiser…
- Deixe-me adivinhar, a Lídia é uma mulher da minha altura, não, um pouco mais baixa…silhueta proporcional, cabelo comprido, liso, olhos mel, expressivos, trigueira, rosto oval. Alegre, sedutora, extrovertida… acertei?
- Lamento informar que se enganou; sou muito baixa, roliça, cabelo negro quadrado, sem atrativos e nenhuma preocupação com isso. Tenho buço mas tiro-o…
- Está a mentir! – exclamou a rir – e sabe porquê?  Todas as balconistas são raparigas jeitosas ou mulheres bonitas.  É mais uma estratégia de marketing.
- Compreendo e é verdade mas eu trabalho na loja do meu pai e não estou sujeita a esse tipo de escrutínio.
- Não acredito no que diz!  - comentou meio desiludido.
- Acredite que é verdade! Ou procura em mim essa senhora, qual o nome dela?
- Graça!
- Deve ser isso, essa Graça, ela é como me idealizou?
- Por acaso, é! – proferiu orgulhoso
- Bateu à porta errada! – acrescentou firme.
- Podemos nos manter em linha na mesma?
- Enquanto eu não ficar farta… que aconteceu a essa mulher?
- Não faço ideia, há uns dez anos que não sei dela. Se casou, se tem filhos, pelo andar da carroça já se divorciou, e haverá  filhos do primeiro e do segundo casamento!
- Se isso se verificar, quer dizer que ela é mais uma irresponsável.
- Que quer dizer com isso? – a voz pareceu perturbada
- Não vê o que se passa à sua volta? O número de divórcios é espantoso e filhos de um e de outro? Tenha paciência, que descalabro!
- Isso é um facto! – admitiu
- É um facto lamentável, nestas ocasiões alguém pensa nas crianças?
- Tem razão! Não tinha refletido sobre isso!
- A Graça que faz?
- É jornalista num canal de TV.
- Que havia entre você e essa Graça?
- Sintetizando; Eu estava noivo da Graça havia cinco anos, tudo corria bem, contudo, um amigo comum arrastava uma asa por ela. Em conversa de homens, convenceu-me a entrar em sites de namoro. E eu caí! 
- Foi apanhado? Que chatice … frequentava esses meios e ainda frequenta?!
- Apanhado mesmo, no sentido literal da palavra. Saí da cama, enquanto ela dormia, pus-me à conversa com uma gaja e sobressaltei-me quando pressenti um vulto nas minhas costas, colada ao espaldar da cadeira! Tentei me defender… Como? E o histórico da conversa, uma aberração, nem parecia meu e  a Graça não perdoou e o amiguinho naturalmente deu uma ajuda.
- O que lhe deu para se meter nessas tretas?
- Curiosidade, o Ângelo tentou-me e eu fui ver de perto … dei-me mal, ele casou com outra, não demorou muito a passar para o lado dos divorciados! Depois deste incidente, tornei-me um viciado em relações virtuais!  Julgo que procurei a Graça em todas as mulheres.
- Ficou preso a esse relacionamento…
- Fiquei.
- Você vai ser sempre um caso bicudo! Pobre da mulher com quem se relacionar!
- Sei o que quer dizer!
- Ainda se mete nessas salas de namoro?
- Não, estou limpo e livre, desintoxiquei-me daquela  porcaria!
- Há quanto tempo se livrou dessa praga?
- Há cinco anos!
- A que conclusão chegou dessas experiências malucas?
- Não me vou desculpar, fiz, não posso voltar atrás e apagar o mal feito! Assumo, pelo menos assumo. Não lhe passa pela cabeça a quantidade de homens solteiros, noivos, casados que por lá anda! E mulheres! Acredite se quiser! É a mais pura verdade.
- Refere-se a que classes sociais? Classe baixa? Sem estudos, sem formação?!
- Qual quê? Desde a base ao topo da pirâmide!
- A sério? – a voz soou estufecta
- Sim! Cruzei-me com todo o género de pessoas. E casais à procura de jovens raparigas?!
- Gente como nós?
- Gente como nós os dois! o Ângelo, o tal que me iniciou nisso, também perdeu a relação que tinha, devido ao mundo virtual e segundo sei, continua.
- Coisa de doidos! – exclamou incisiva
- E digo-lhe mais, cheguei a entrar em sites de lésbicas e bi, encontrei homens a se fazerem passar por mulheres, só para saberem como era … a maioria dos homens casados, adora lésbicas … alguns até sabem que as mulheres são… e querem continuar casados com elas…
- Porquê? Que aberração! – a voz cada vez mais  pasma
- Segundo o que me contaram, não sei se é verdade, as lésbicas não têm problemas em praticar sexo oral, coisa que a maioria das mulheres hétero se recusa a fazer…  e os homens adoram, por isso não se importam de ser traídos.
- Por causa de sexo?! Você concorda com isso?! – no auge do horror
- Eu concordo com a prática, desde que ambos estejam devidamente protegidos. A camisinha existe para isso. A Lídia é contra?
- Não vamos falar agora de mim! Gente tarada! A sua família soube disso?
- A minha família soube… o meu pai enfureceu-se comigo, quis interditar a minha entrada em casa. A minha mãe, pelo contrário, desculpou-me logo e passou a mão pela minha cabeça. Tem filhos, Lídia?
- Não interessa. Continue!
As mulheres são muito moles, como mães são espertas, passam a parte pior para o pai e este coloca o capuz de demónio, enquanto elas, são as santas… as boazinhas, quantas enlouquecem o marido ao ponto de os colocar num manicómio? Ao ponto deles perderem a cabeça e agredirem-nas e a culpa é sempre dos homens, os maus da fita somos nós!
- Defende homens  que agridem mulheres?!
- É óbvio que não! Mas elas são terríveis, algumas provocam mesmo as brigas …e colocam-se no lugar das vítimas e eles, os parvalhões, engrossam a lista dos carrascos…
- As coisas não são bem assim! – atalhou descrente
- Então agora podemos marcar um encontro?
- Vou pensar no assunto.
- Mãe, já vou para a escola!
-Tem um filho?! – questionou deveras surpreso
Não houve tempo para uma resposta.
- Graça, não encontro a minha gravata! – era uma voz masculina
- Graça?! – vociferou  desorientado o locutor de rádio
Subitamente a ligação caiu.
  
PN
  













sábado, 5 de janeiro de 2019

Passagem pelo deserto



Repousa esqueleto repousa,
repousa esqueleto repousa
O verde cedo acabou-se…
não estás a suportar?
chora, vale a pena chorar …
descongela as tensões emocionais
O deserto é comprido…
O deserto é penoso
não vale a pena o passo estugar
Repousa esqueleto repousa,
o  teu relógio atrasou-se
Oh deserto, o esqueleto não tem frescura por onde passar;
encolhe a travessia e dá-lhe um atalho para mais cedo chegar
ele já se está a desmanchar!
Porque o deserto é longo…e traiçoeiro;
 o esqueleto vai encontrar uma flor;
uma flor bem dotada
mas muito ardilosa, atenção!
reveste-se de cores desiguais para ludibriar
Esqueleto, não permitas o enfraquecimento das tuas faculdades intelectuais
E não  é    essa que irás  encontrar
Cruzar-te-ás com muitas outras
Aprendeste a analisar…tu sabes
Continuas no deserto?
É a tua sina!
Os teus pés pisam o pó que ferve,
mais à  frente encontrarás
outras tão  sorrateiras
como a primeira…
Conheces o lado temerário da senda
  sabes… tens rodagem
E levas outra picada?!
já são tantas que te ferem
cautela, muita cautela
para não sofreres tanto
Elas são  assim; matreiras, sorrateiras…
e continuas no deserto
Queres sair?
mas o deserto é  demorado;
direcção  larga
Estás ao ermo,
tão  sozinho e desamparado
Tão  farto de estar afastado
Levas os olhos vermelhos,
fadiga nas pernas,
dores nos ombros
e as mãos cheias de espinhos
Tu também  és  uma flor ;
Olhas para ti !
e ficas a pensar…
- Que raio de flor sou eu? – elevas a voz como um altar sofrido
- Que raio de flor sou eu? – responde o eco sofrido
- Será  verdade ? – sussurras compungido
- Serei flor ? Flor manhosa como as outras que encontrei no caminho? - as sensações dobram-se atormentadas
- Eu quero um oásis !-vociferas rouco ou louco
- Eu quero um oásis ! – responde o eco rouco ou louco
-Onde  estás?- tu  
 -Onde estás ? - o eco
- Quem me quer vender um oásis ? - tu
Quem me quer vender um oásis? - o eco
Não sejas tolo. Aqui  não  se vende água,
encontrar essa região fértil…? Onde?
não há viva alma, só bicharada,
ninguém  vende, ninguém compra
só a voz agreste do vento! e o sol a uivar!
Para ti não há consolo;
agarra a sorte com muita, muita  força e não a largues
e não toleres que qualquer uma, daquelas desrespeitosas
 flores, te venham usurpar.
PN

domingo, 23 de dezembro de 2018

Verdadeira Demonstração de Amor


A mão afastou a nuvem de mansinho
e o rosto sorridente aflorou à janela do presente;
Lembranças remetidas para o lugar do esquecimento,
aquelas que despedaçam, pungem, fazem tremer…
devem ficar por lá; no próprio entorpecimento
deixá-las; poalha dissolvida no tempo.
O milagre torna-se real e reconhece de novo
um rosto familiar e aplaude veemente;
Alguém abriu portas e foi mais além;
debateu-se por entre fendas, fisgas, frinchas
gretas ásperas…
e assim foi puxando para a luz quem na escuridão se perdeu
O amor andou próximo, soube? Sentiu?
Ocasiões houve , em que as ervas daninhas imiscuíram-se
na vegetação sã, rondando, entrelaçando, asfixiando e
criando enormes confusões.
As mãos foram desatando o nó que as apertava,
impercetivelmente  uma das mãos foi-se perdendo da outra,
a mais velha tornou-se  frouxa, cansada, descrente…
os olhos cegaram; espetos de galhos secos, mato enganoso
meteu-se de permeio…
A outra, sempre vigilante, seguiu a rota torta da mão resvaladiça.
Hoje, talvez quis Deus, que mais uma personagem fizesse parte
 da história; pequena de altura, grande em sabedoria
sem aparatos de pujança, sem verniz de rainha,
modéstia comovente, pitada acutilante de humor.
As vicissitudes prenderam e aprisionaram quem desejaria ter voado…
A misteriosa figura trouxe com ela um sol
que só alguém avista; grandioso na imaginação…
desperta muito interesse,
atenção, provoca palmas e vivas,
bem-estar e deslumbramento
gritinhos de exclamação.
E quem trouxe esse “milagre”?
A memória reaviva e reconhece; as mãos reencontram-se e atam-se uma à outra;
Aquela que esperou pacientemente,  conquistou mais uma vez o seu lugar
num coração algo "distanciado"…
Chegou a hora; saída do “coma”;
 a benévola mão
inadvertidamente sujeita à rejeição, é outra vez considerada;
Agora sim, o sentimento é por inteiro; de novo amada.

PN 

Amigos, desejo-vos  Boas Festas! Divirtam-se em Família! Sejam cúmplices nos Afectos!  



quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Mãe, eu tenho tantas lágrimas apertadas nos olhos...



Nota: Frase a pensar em muitos filhos que sofrem em silêncio  e que as mães nem imaginam. Alguns deles  riem  para não chorar. Para todos os efeitos, são alegres, bem dispostos, aparentemente, apenas aparentemente e só aparentemente, felizes. 

Para esses, que passam por nós, despercebidos; MUITA ESPERANÇA.

Boas Festas e até já. 

PN

domingo, 2 de dezembro de 2018

Desterro


E desenterro-me numa palidez chocante,
Ziguezagueante !
Busco sair do espesso enredo
Tacteando as paredes molhadas e frias,
Arrancando o lodo com
As unhas em sangue
Os olhos em chama, mortiços
Febris de desencanto
E as imagens passam num relâmpago
Nem lhes consigo tocar
Os dedos ardem por ti!
Apaziguadores, fraternos.
Nenhum laço nos aperta,
Nenhum rio aproxima,
Os lobos afastaram-nos e tu quieto ficaste?!

PN

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O covil


São bruxas com dentes de riso cínico;

monstrinhas endiabradas mexeriqueiras,

com a vida dos outros naquelas bocas de tesoura,

cabeças piolhentas de invenção,  abaixo de cão.

Aquelas cadelas fracas derrapam a  velocidades sem freio

Não existe reciclagem que as salve, cérebros acéfalos …

Limitam-se a consumir livros e mais livros, numa sofreguidão sem nenhuma expressão;

e não limpam o pó preto dos móveis, das estantes, das cadeiras, do chão

Sopram a poalha granulada das mesas, para cima;

com sorte o gato sai da história e lambe por engano os ácaros de dentes afiados,

continuam as leituras, olhos em bico, olhos traiçoeiros,  a  instruírem-se; as ratazanas;

 é moda, é elegante; verniz pelintra rachado

Ler e arrotar com a boca podre de satisfação;

 adoram autores, livros e livrarias, basta um mexerico e  as baratas tontas correm

em todas as direções, elas querem avidamente saber!

 De repente o livro jaz abandonado sobre a secretária  

Armadas em doutoras cultas, à procura de histórias do alheio,

a dar palpites sabedores e a trepar a vedação para o desconhecido, que atrevimento!

 Ignorantes, carregam um poço de miséria às costas, cujas águas cheiram muito mal

Revestem-se de falso brilho, deslizam com língua de cobra a cada canto, tudo para chegar em lugar primeiro;

a tentar seduzir com aqueles olhos bicudos de enxofre e maldade pura;

maldade crua mas  bem camuflada à mais incauta das criaturas inocentes

E, lá andam sobre os andaimes, a esconder as dívidas que lhes vergam a espinha;

Convencer através da indumentária faustosa e a lixeira a vir bater-lhes à mão...

Puta que as pariu, negra sorte cruzar-se com semelhantes entes; ratoeiras

Infestam o ar com o bafo daquelas vozes desengonçadas, mal resolvidas, altifalantes

Traiçoeiras, tiranas, acham-se senhoras, madames, rainhas;


É ver aquelas mosquinhas babarem felizes, a estremecer de gozo

Enfartadas na própria aleivosia e ignorância…
Assaltam as ideias dos outros e vendem como sendo propriedade sua,

dão ordens contraditórias, chafurdam na lama … e é tudo o que sabem fazer!
Coitadas!
  
PN