terça-feira, 8 de novembro de 2022

Nos Tempos do Imperador

 Pedroll sentado na cadeira do rival, Tonico Rocha permanece de pé ( um deputado sem escrúpulos e sem nenhum caráter)

- Magestade ! A que devo a honra? No meu gabinete? 

- Eu estou tentando me colocar no seu lugar. 

- Não entendi.  

- Como alguém é capaz de cometer tantos crimes e agir como se nada tivesse acontecido? O senhor não sente nenhuma dor por ter tirado a vida de outras pessoas? 

- Magestade! E quantas vidas foram perdidas nessa sua guerra ?! 

- O Brasil foi invadido, não havia alternativas e essa guerra podia ter sido evitada se não fosse a sua interferência na embaixada brasileira em Assunção. 

- Painho sempre me dizia que quando um não quer, dois não brigam...

- Seu pai dizia isso na época em que éramos crianças e que me bateu, será que naquele instante você desejava, talvez , tirar minha vida ... será que era isso que queria? 

- Não,  não,  se com aquela surra a minha vida já destrambelhou, se eu  tivesse matado o menino imperador... ai...eu seria o crápula da nação.  

- Seria?

- E vossa majestade é um santo. O modelo da virtude que trai a esposa. Sabe o que o senhor, é? Um hipócrita! 

- Sim, eu tenho defeitos.  Eu cometi erros, cometerei novos erros, porque sou humano. Já o senhor, deputado, é um criminoso, covarde, que espalha mentiras, para talvez tentar manter seu cargo público, pago pelo povo. O senhor é um sujeito nocivo, ressentido, frustrado, que dissemina o mal, para tentar ser notado. E , sabe o que ganhará com isso? O deputado será desprezado por completo, será solenemente esquecido e varrido da História. " 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Obscura sorte quem lhe calha, canalha desta...

 

O imbróglio nas mãos do inescrupulosamente
estúpido,  colocado no altar por falsos deuses e anões
pretenciosos
Desavergonhados, agarrados a quê?
Espezinham flores!
As mais delicadas? Que absurdo !
Rude gesto,  picador de gelo, ser boçal
Pretenso atingir
a casa alheia...
Provocação desnecessária
Sem medida nem   ponderação
A impor à  viva força
a altivez soberba
Discurso incisivo
E sem razão !
Gente  demoníaca , cuspindo enxofre
Impediedosa e descarada
Inestetica e  maldosa
E muito mal intencionada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Conto VIII

As horas  passaram , escondi-me nas sombras do  parque  e fiquei aguardar    a reação dela.  Perto da meia noite,devia estar muito desesperada,   veio cá fora, de um lado para outro,  encolhida de medo,  observou desconfiada  para os lados, eu nunca me tinha  ausentado de casa à  noite. A mulher  estranhou.  Percebi que gostaria de me chamar, faltou-lhe a voz, nao teve coragem e para não causar alarido.  Àquela hora, o homem fora de casa... uma efeméride. O acontecimento,  no dia seguinte, cairia na boca da vizinhança.  Ela não ia  querer isso por nada.  Muito transtornada, precipitou-se novamente para dentro, nem tentou procurar  no bar.  Grande cobardia. Armava-se em esperta,  rainha da casa e dona da minha vida.    Pernoitei  no bar,  aquela  noite, estava decidido, ela iria   sentir a minha falta.

 Inspirado no Conto de Sophia de Mello Breyner - " A viagem" in "Contos Exemplares"

Conto VII

Isso Josefa, em beleza, por acaso és  minha mãe?!eu a ser tratado   como uma criança, pela minha mulher, na frente de um estranho. Não,  não é de agora, vem de longe ; " Atrasado mental",  "  Não vales de nada ", " Nunca chegarás longe "; " Está calado, não suporto escutar a tua voz", e, outras tantas, estou certo, Josefa? Eu também errei, embrulhei-me na mesma manta de retalhos ; " Acertava-te  nesse focinho", Vai para o raio que te parta, demónio",  Está  calada que não sabes nada, estafermo" ,  entre outras... olho por olho, dente por dente. As nossas  quinquilharias  arrastam-se como fantasmas colados a nós, só uma demência para esquecer tamanha torpeza.  A própria vida a meio gás ou menos que isso. A única oportunidade que   conheço para  ser feliz, para  se realizar, outra semelhante a esta, onde?  Prendemo-nos a coisas que só  nos tornaram infelizes e quantos anos, a rondar no mesmo lixo tóxico, sem conseguir sair da sujidade,  a adoecer,  a padecer,  a apodrecer, a exalar mau odor , mau hálito,  como se as fezes nos saíssem pela boca... a consentirmos   neste  absurdo, a  envelhecemos precocemente, e a tornarmo-nos  senhores das causas impossíveis...   Pobres de espírito que somos.  Por escassos instantes estava esquecido do que iria enfrentar, a cruel e dura verdade. Até lá  precisava   desconfiar de Josefa para me aguentar. O crepúsculo foi  desaparecendo a olhos vistos. A cor esmoreceu devagar, lentamente e as lâmpadas  já acesas àquela hora,  davam um tom tão díspar da luz diurna. Para espanto meu, o desconhecido saiu na mesma paragem que nós. Apeamo-nos, na despedida o desconhecido ainda lançou o convite:
- Se quiserem, estou naquele café. Quem paga sou eu.
 - Obrigado, vamos entrar em casa e depois logo se vê!  Entrei  disparado, galguei escadas e apressei-me a rodar a maçaneta da porta, numa sofreguidão desalmada, tateei  a mesa do escritório, existia   papelada,  nada de envelope:
 - Josefa! - berrei  em plenos pulmões Desci  a correr,  procurei  a mulher e encontrei-a na cozinha:
 - Que modos são esses? - repreendeu ela . Circulei à volta da mesa, até ficar de frente para ela , eu de pé,  ela sentada:
 - Que brincadeira nojenta foi esta? 
 - Qual? - questionou com espanto 
 - Não encontrei o envelope! 
 - Deve ter sido a empregada que sem querer atirou fora!
 - Como? A empregada ia atirar fora um envelope daqueles, ela está avisada para não mexer na minha secretária. 
 - Talvez deixei na minha! 
 - Tive o cuidado de ver a tua e nada!
 - Pedes uma nova via... 
- Sabes que estás a mentir descaradamente !
 - Tu também mentes ! 
 - Assim? Como tu? É  grave o que inventaste!
  - Não faças dramas! 
 - Josefa, não tens remédio, esquece! 
 - E tu tens?
 - Antes que te parta a cara e depois seja incriminado por violência doméstica,  prefiro sair,   vou ao café da esquina, fazer companhia ao estranho. 
 - Gostas mais de estranhos  que os de dentro de casa. 
 Sem mais demoras, saí  furioso e bati com a porta ruidosamente: 
- Grande bruto!-  disparou  Josefa

Conto VI

- Dá-se bem com ela? 
 - Com quem? 
- Referia-me à rotina.
 - Dias sim, dias não. 
 - Também eu! O telemóvel do desconhecido chamou:
 - Com licença! - pediu e afastou a cabeça para o lado 
 - Toda! O desconhecido encostou-se bem à janela para  abafar melhor a  voz. Quando terminou, voltou-se para mim: 
- Felizmente que está aqui, caso contrário, eu passaria a viagem toda nos jogos, troca de mensagens, adoro  isto - e guardou-o no bolso do casaco com o mesmo zelo que se esconde uma pedra preciosa. 
 - Controlo bem esse vício, de viagem, nem pensar! Serve apenas para atender, ligar e enviar uma ou outra mensagem,   em caso de grande necessidade. Não me deixo escravizar , porque o  vício de uns é o lucro de outros. Quem ganha? Nós sabemos, sempre os mesmos.  O que poucos  sabem  é que esta panóplia do digital é uma fatura descomunal para o ambiente  e ninguém esclarece isso. - Também  é  contra a tecnologia!? - constatou entusiasmado
 - Nem a favor, nem contra, a tecnologia devia ser usada com medida.  O telemóvel é a invenção mais revolucionária, o  brinquedo de todas as gerações. - Poucos resistem à tentação. 
 - Eu sou dos que não se deixam seduzir! Sou antiquado e contra a corrente, prefiro pensar, observar tranquilamente a natureza, folhear um jornal, abrir um livro...ler. 
 - Sabe que os jornais têm páginas na Net, e pode consultar  na mesma! - riu-se
 - Gosto do papel! 
 Caiu um silêncio, calamo-nos os dois. Ele deve ter   pensado "que indivíduo estranho, não parece a mesma pessoa da vinda, de qualquer forma,  não o conheço! Deve estar cansado! Aquela deve ser a mulher dele. Terão vindo da lua de mel? Será o segundo casamento? Pelos rostos, já não têm idade para ter filhos pequenos. E se forem amantes? Provavelmente ! E vêm aqui divertir-se , longe dos olhares  curiosos." 
 - Olhe - apontou o desconhecido- pelo fumo, é incêndio! 
 - Estes incêndios dão que pensar! - acrescentei logo
 - Os incendiários andam sempre à solta, não é? - Circulam por aí umas teorias descabidas, de que as altas temperaturas provocam incêndios...a mim,  parece mais evidente, se há fogo, há mais calor!  terrorismo interno ou externo?  Ou políticas ineficientes? Remediar não é sinónimo de prevenir.
 - Você é  dramático! - Óbvio; gente, vegetação, animais, solos, habitações, toda a logística para combater as chamas... quantas perdas....e gastos desnecessários! 
A mulher voltou-se para trás e mostrou-me o rosto sisudo. Mais uma vez, fiz silêncio  até ao fim da viagem. Nem eu, nem o indivíduo ousamos sequer olhar um para o outo. 

Conto V

Aquele fim de semana foi terrível para mim , lutava desesperadamente para esquecer a  veracidade ou não daquele vaticínio, um diagnóstico que me   angustiva.  Tentei ler o jornal,  mergulhar na piscina, apanhar sol, bronzear a pele e moderar a minha tristeza. Meti-me  no quarto a ver televisão, nada me consolava, aquele prognóstico moía- me.   Ela podia estar  a mentir...E se fosse mais uma armadilha para me  manter cativo? E se fosse verdade?  Observei-a em diversas ocasiões e  censurei interiormente a  calma, a descontração invulgar, a satisfação, o  gozo lascivo. Porque raio assustar-me assim? Ela deleitava-se nos seus detalhes de higiene pessoal, demorava a comer gelado no bar, passeava à  volta da piscina. O constante sorriso nos lábios, irritante de tão provocatório. As discussões entre nós haviam suavizado imenso, a minha postura murchara, ela aproveitava a debilidade  em que me encontrava para demonstrar que não se sentia minimamente  atingida:
- Ainda estás a pensar nisso?
 - Outra vez essa pergunta?
 - Esquece isso! - e continuava liberta
Preferi calar-me,  ela que se  imaginasse  vitoriosa contrariamente ao real problema e  crescia dentro de mim a suspeita de que estaria efetivamente a faltar à verdade.  De qualquer forma, ansioso como sou e era, esta dúvida corroía e doía! No domingo, afastamo-nos ainda mais. Finalmente saí do quarto e fui me debruçar na varanda de um pequeno cais,  nas imediações.  Usava óculos de sol, precisava estar só para chorar, chorar tudo, um profundo lamento pela vida que não aproveitara... como seria esquecer a vida ? As porcarias, os bons momentos...os nomes dos filhos, o  próprio nome,  ficar dependente dela, somente dela?Ou de algum dos filhos? Como seria?  E  se me tornasse um peso na vida da família? Um lar? Que  odiosa solução ! À  mercê de gente sem escrúpulos?  gente sem preparação?  gente desumana? Eu a definhar lentamente, louco, sem juízo, à  fome, atirado à cama e amarrado  para não fugir. À minha volta, profissionais  desejosos da minha  morte! Pois,  ali, igualmente, considerado um fardo! Já tinha  vivido, o meu  tempo chegara ao limite,  a  minha vez de seguir.  Ocupar  uma cama se  não se vislumbrava qualquer melhora? Decidiriam por Deus, por mim e até pela família,   abreviariam a minha hora derradeira. Sem suportar mais aqueles pensamentos,  que me  golpeavam incessantes,  arranquei a camisola do corpo e num gemido gritante, atirei-me  à  água e nadei em braçadas furiosas. Ao fim do dia,  preparadas  as  mochilas , fomos  para o ponto, aguardar o autocarro que estava prestes a  passar.  Havia mais pessoas que à semelhança de nós,  tinham deixado o hotel e regressavam a casa. Quando chegou a altura,   colocamos as máscaras, deparamo-nos com alguns  lugares vagos mas  singulares.  Avistei o desconhecido, ainda tentei  fingir que não o reconhecera mas ele chamou-me logo com a mão 
- Então,  de volta a casa? - perguntou efusivamente 
 - Naturalmente - respondi   sem energia 
A mulher sentou-se na bancada à minha frente, imediatamente a seguir . Apesar de ser a hora crepuscular, ainda   levava o telemóvel na mão para registar qualquer situação anómala ou surpreendente.
- E  à rotina também  - adiantou o desconhecido
 - A rotina não é má, é a unica forma de organizar o quotidiano - repliquei

Conto IV

- Passo a esclarecer; não penso como o senhor mas respeito as suas opiniões. Sou apologista do progresso,  da modernidade, da ciência,  da tecnologia. Serviu-nos bem! Homem pobre,  homem rico,  é a vida!  não existem sistemas perfeitos.
 - Vindo de um homem sobejamente  imperfeito, tudo será imperfeito e falível. 
 - Talvez. Mas enquanto dura, é bom , faz bem e dá prazer! Olhe para os benefícios!
 - Oh, já chegamos! - anunciei  sobressaltado  - virei-me   para a mulher- é aqui, não é? 
 -Sim, é aqui! O desconhecido levantou-se e deu espaço para eu  passar por ele.  Desejamo-nos  em simultâneo   um  bom dia . 
Eu e mulher  apeamo-nos, o desconhecido ficou à espera que o autocarro retomasse o andamento.  
 - Olha, Josefa,  eu vou entrar de novo! 
- Quem é aquele fulano? 
- Não sei quem é!
 - No entanto,  conversaram imenso!
 - Nada pessoal !
 - Isso é que foi abrir a boca! Tu mais do que ele!
 - Andaste a espreitar os maxilares de um e de outro para ver quem abria mais vezes? ...e a  fingires-te de distraída,  afinal, atenta a merdas sem importância! Francamente, Josefa! Olha, eu sigo viagem! 
 - Como?! Perdeste a cabeça,  vieste comigo, voltas comigo! Fim de conversa!
 - Não, não vai ser assim! 
 - Estás de conchavo com esse homem?
 - É óbvio que não! Nem sei o destino dele, não sei nada!  Vou até ao fim e é longe que quero ficar! - Isso cheira-me a caso,   não te sabia com essas tendências... 
- Josefa,  inventas histórias que só existem no raio da tua cabeça, tudo para me prender,  porque não aprendeste a viver só, olha, o motorista já está à minha espera... 
- Vai, se é isso que pretendes mas tem cuidado para não te perderes... 
- Por favor, Josefa! Cada uma, pior que a anterior!
 - Li o teu relatório médico, o resultado da ressonância, há fortes indícios da doença de Alzheimer. - Como!? 
 O motorista apitou e eu  pedi desculpa pelo atraso e indiquei  com a mão para seguir.
 - Então,  o  resultado do exame já chegou?! Mas tenho a impressão que  não era agora! Tão cedo?!
 - Hoje de manhã,  antes de virmos... 
- Esta manhã? Quem foi levantar? 
 - Quando estavas a tomar banho, o teu telemóvel tocou, fui espreitar, ligaram  da clínica a informar que o exame estava pronto, pedi à  Elisa  que fosse e quando ela chegou eu abri e li, deixei em cima da mesa do teu escritório... 
- Estranho, ela nunca chega tão cedo, nem comentou nada comigo.
 - Eu tinha pedido para chegar mais cedo e também  para não comentar nada acerca do exame.
 - Ah! Primeiro,  tinhas a obrigação de me comunicar, segundo,  abres  o envelope, endereçado à minha pessoa?  que descarada! 
- Pensei que seria menos chocante saberes mais tarde... 
- E dizes precisamente agora?! - berrei  com ela 
- Só falei porque querias seguir e se te perdesses?! - ela explicou 
- Olha que desgraça! Que descanso, esquecer a miséria do que vivo! - salientei  revoltado 
- A minha também , não te esqueças!vá  , vamos aproveitar que estamos aqui.
 - Que vontade - respondi  desconsolado, e em tom  mais alto- tens a certeza do que leste? 
 - Tenho, está lá, quando regressarmos, vês! 
- Por mim, voltavamos ainda hoje... 
 - Deixa de ser tonto, aproveita  que é para isso que cá estamos.  
 - E se fosse contigo? Ainda vislumbrei um riso de escárnio mas ela escondeu o rosto.