sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Ainda a propósito...


Imagem captada da Internet 

Segundo J.G.

O que me parece é que estamos já, sobretudo nas sociedades altamente industrializadas, numa espécie de caos do tempo. Eu lembro-me daquela famosa, célebre e conhecidíssima frase de Shakespeare no Hamlet em que ele diz " O tempo saiu dos gonzos, o tempo está fora dos gonzos." O que é uma frase absolutamente extraordinária pelo que revela do conhecimento, que está fora dos gonzos. O tempo vive por si, saiu daquilo que o domestica, é o que faz com que haja uma ordem da vida, é a possibilidade de haver uma charneira que liga o tempo do trabalho e o lazer, que os tempos de um e de outro possam coexistir. Quando há pouco tempo para o trabalho, o trabalho começa a disfuncionar e não se pode combinar com o tempo do lazer, com o tempo psicológico, com o tempo da família.  Nós somos feitos de imensas camadas de tempo, tempos heterogêneos, que entram em combinações e a possibilidade de combinar, de traduzir uns nos outros e de os integrar numa vida, é que faz a ordem do tempo. Quando o tempo sai dos seus gonzos isso desaparece.

Há uma experiência do tempo que é sempre mediada pelo movimento das coisas, o tempo meteorológico, o tempo astronômico, o tempo psicológico, o tempo da convivência familiar, da convivência comunitária, o tempo político, o tempo da ação aventurosa, o tempo do amor, o tempo dos afetos, etc. São todos tempos.  A perceção que tenho é que nós vivemos num tempo fora dos seus gonzos, em que não temos tempo para nada, em que precisamente estamos sempre à procura de arranjar tempo para a família, tirando o tempo ao trabalho, tirando tempo ao lazer...Não temos já essa tal ordem do tempo.  E isso é extremamente importante porque é essa ordem combinada das diferentes camadas de tempo que dão sentido à vida. Pode-se fazer uma descrição gráfica, do esquema, da ordem do tempo, que dá sentido à vida e esse esquema está a destruir-se, a quebrar-se por todos os lados.

Não é porque se é agnóstico que não se pode admitir um tempo de eternidade, que não devemos confundir com o tempo de imortalidade. A diferença é que imoralidade é a sobrevivência depois da morte, a eternidade pode ser conquistada durante a vida.
A obra de arte é eterna mesmo se os materiais forem corroídos e desaparecerem.

No que diz respeito ao presente e passado, o que acontece hoje é que há uma destruição progressiva que dura já há muito tempo, vem antes do séc. 19, uma destruição progressiva das tradições, dos territórios onde estão inscritas essas tradições, essas que suscitam, induzem comportamentos e ações. Tudo isso está a ser destruído fundamentalmente por 3 fatores: Capitalismo, agora o capitalismo financeiro global, o outro é a tecnologia e o desenvolvimento extraordinário da tecnologia e o terceiro é o poder do estado. Poderíamos analisar, mas é evidente que nós vemos que a tecnologia se põe ao serviço da ganância capitalista e esses territórios vão sendo destruídos de tal maneira que os transportes são cada vez mais rápidos, não temos uma relação com a terra e o território e o passado, por isso às tradições já não contam.  Por isso o peso dos costumes, de uma moral, que vem dos antepassados já não pesa, há essa destruição... O passado é arquivado e há arquivos excecionais como nunca tivemos, mas não temos uma relação com o passado. Temos uma relação puramente de informação, nada é revisto. O que vai sobrar, não sei. Que homem será este sem a construção da memória?  Não sei responder, implica futurologia de que não sou capaz, não tenho controlo.

Não é imediato, mas vamos ter a emergência de um novo ser humano que  vai ser para nós, irreconhecível porque  nós temos uma outra imagem  do homem porque  as técnicas, por exemplo: contra o envelhecimento,  contra a doença vão  transformar completamente a nossa perceção e a maneira de vivermos o tempo; imagine que conseguimos parar o envelhecimento,  com uma boa qualidade de vida, aí a morte pode ser adiada ou não sei, de qualquer forma  isso implica, uma transformação total da nossa maneira de pensar as coisas, de pensar os processos de transformação físicos que nós antropomorfizemos. Basta ver o que se está a fazer em relação ao corpo, às próteses meio humanas, meio robôs, na nova economia de trabalho, em que haverá uma mecanização extraordinária. A Acção não conta, já não é sequer a desvalorização da acção, a acção do corpo não conta. Porquê?  O que vai contar é o tempo que essa acção faz nascer, que é fundamental, esse tempo é que é o tempo da respiração, esse tempo vai desaparecer e então como é? A imagem do homem será irreconhecível, a imagem do homem está em profunda alteração, mas não sei como será. Há outros factores, futurologia, outro factor, para mim extraordinariamente importante, para mim e para milhões de pessoas; as alterações climáticas,  o que  está  a acontecer ao planeta é decisivo; em dois sentidos; ou nós fazemos qualquer coisa e isso implica necessariamente uma transformação enorme do nosso pensamento e da nossa vida, se não  fizermos nada e então?  Não sei! A técnica em si não é má, o que me parece e temos que destacar, estamos numa época de uma crise singular.  Esta crise não é como as outras.
Imagem captada da Internet 

Vou equacionar um terceiro termo, o Ministério da Educação; é preciso que se dê tempo àqueles que não têm absolutamente tempo, a inteligência dos responsáveis relativamente ao que isso é.  O que é uma troca entre um aluno e um professor?  O que é um professor?  O que é  um aluno ? , etc., etc. É preciso que o terceiro termo pense e tenha tempo porque não tem tempo.
A governação hoje em todos os países é uma governação sem tempo, sem tempo para refletir, sem tempo para saber o que é o ensino, o que é educação, etc.



sábado, 8 de fevereiro de 2020

A propósito...

Segundo G.M.T.

Quando acordamos, o dia pode ser uma surpresa, uma dádiva ou podemos tratá-lo de forma displicente e recebemos o dia como se fosse um presente de porcaria. O que vou fazer com este dia? Saber como vou aproveitar o tempo, isto está relacionado com a questão da morte.
Acho que começa logo com as crianças, há um termo extraordinário que é a ocupação dos tempos livres, quero dizer, se ocupamos os tempos livres, é uma invasão dos mesmos... o medo do tempo branco, pronto, agora fazes o que quiseres, o medo do silêncio, do espaço vazio, por exemplo:  hoje é raro, as crianças terem um espaço vazio, têm já brinquedos, estruturas em que o próprio espaço está ocupado a dizer o que elas devem fazer. O que parece claro, é que esta ideia da criança não se poder aborrecer, porque começa na infância e depois a questão de pensar... eu diria, a primeira parte; o prefácio da criatividade nas crianças é o aborrecimento, é o tédio, a criança não tem nada para fazer, que chatice isso! Que chatice! Tem que aguentar, tem que criar algo para conceber. O ócio, é muito interessante, a questão da etimologia das palavras; negócio é   negação do ócio...hoje não têm tempo de ócio, o tempo das crianças é tempo de negócio no sentido estrito da palavra, que é um tempo útil, um tempo utilizável.
Para que é isso? Tem a ver com a dificuldade das pessoas não estarem constantemente ligadas, hoje há um problema; tem se falado muito do tempo que nos é tirado do exterior, acho que nós temos que nos responsabilizar individualmente. Há muito tempo que se auto destrói. As pessoas têm bastante tempo disponível e quando alguém tem várias horas livres, está constantemente a ver disparates na Internet. A viver como um imortal, está claramente a desperdiçar o tempo.
A questão da reflexão está ligada ao espelho, o espelho reflete, a reflexão mental não é mais intectual, eu estar dentro de mim próprio a ver se estou a gostar do que estou a ver. Não é do cabelo, é da minha vida. Se isto faz sentido. Quando nós não temos espelhos e temos ecrãs e o ecrã é espelho, tapa o espelho, impossibilita que nos vejamos a nós próprios, entretidos com ecrãs e ecrãs e mais ecrãs, a certa altura morrem, acaba o ecrã. Será que usaram bem o tempo, a tarefa imposta veio do exterior. Então como é que as crianças vão usar o tempo?




domingo, 2 de fevereiro de 2020

Breve alinhavo sobre o joelho



Na sequência do texto anterior onde deixei a descoberto assuntos e fraseado obsceno, fi-lo porque se tratarem de situações ocorridas em contexto de sala de aula. Há que sacudir o fumo do politicamente correto. Isto sucedeu e sucede e vai continuar a suceder…  Um encontro ocasional bastou.  Não mencionei que aconteceram tentativas de suicídio. Alguém se deteve sobre essas tentativas? Foi-me confessado que não.  Ninguém se interessa com isso! Porquê?! Mais, entre três a quatro horas dentro do mesmo recinto, a sufocar, pois a sala não possui ventilação suficiente?!  Alguns chegam a ser acometidos de síncopes e mal-estar. Já exprimiram o seu desagrado pela forma como são tratados e nada. Isto é correto?! Ninguém quer saber, ninguém se interessa?! Aulas predominantemente teóricas num curso vocacional?! Absurdo! Então estes jovens não saíram do currículo dito normal por esse motivo? Falta de adaptação? Afinal são os docentes que apontam essas razões!
Caros leitores,
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança todo o mundo e composto de mudança, tomando sempre novas qualidades "
Parece que o Ensino, não! Para mal de todos!
Onde estão as reformas profundas, que tanta falta fazem!? Aplicam-se pensos rápidos; computadores, tablets, uma panóplia de tecnologias para os sossegar, torna-los quietos, manietados, calados, como soldados, sem contestar os conhecimentos já cozinhados por gerações anteriores.  Sem permissão para remexer, tocar, apalpar, sentir, nem que seja para voltar à mesma conclusão! Fica a experiência e isso é uma mais valia. (Sopa todos os dias é insuportável).  A escola? " O barquinho da carreira faz que anda, mas não anda, parece de brincadeira "
Nem todos almejam o décimo segundo ou o ensino superior. Nós não precisamos do varredor de rua? Do padeiro? Do pedreiro? Etc. E tantas outras profissões que merecem ser valorizadas. De que servem os cursos profissionais nestes moldes? Faz algum sentido? Para mim, não!  Estes rapazes e raparigas vivem numa conjuntura falida, falhada, desengonçada! E eles são as grandes vítimas do sistema!  É urgente sair destas prisões, derrubar paredes, sair deste terrível incómodo.
 Ensinem a olhar positivamente para a natureza das coisas. Ensinem a plantar árvores. Ensinem a escutar a sério o canto dos pássaros.  Fitem-se mutuamente, como se vissem pela vez primeira. Toquem nas mãos uns dos outros com respeito e alegria. E o amor ao próximo? Ensinem o valor da amizade. Ensinem os bons modos. 

Desfaçam os currículos já prontos, urdam novos e não esqueçam a saúde mental! Ensinem o significado da palavra altruísmo e sobretudo ponham-no em prática.  Para além do que esqueci de mencionar aqui, lembrem-se que cada pessoa tem o seu ritmo e isso precisa de ser tido em conta! Tempo, caros professores, tempo, é preciso paciência e dar tempo.
E tenham em atenção o vosso comportamento para com aos vossos pares. Tal como o pai e a mãe em casa, se a relação de ambos adoece, a saúde da casa fica fortemente comprometida.
E o mal propaga-se a uma velocidade estonteante! É urgente contrariar rapidamente esta vaga negativa! 

Imagens captadas da Internet 
Texto - PN




domingo, 26 de janeiro de 2020

É mesmo um curso vocacional ?! e para quem?!


Do que se trata? A narração de alguém que frequenta um curso profissional diurno. Fui autorizada a usar gravador. Afirmar que se fala mal dentro da sala, é colocar uma cortina de fumo sobre factos terríveis, resolvi deixar tudo como me foi relatado.

" A maior parte das aulas, é  para amarrotar papéis e atirar uns aos outros. Falar alto. Rir. Provocarem-se mutuamente, dizer graçolas.  Uns dão-lhe para consultar o telemóvel, mesmo descaradamente. Há  na turma um casal que são  namorados, aquilo é  amor/ ódio,  acaba sempre mal. Ela bate nele, ele bate nela, mesmo dentro da sala. É  um manicômio.  O professor chama à  atenção mas eles estão-se nas tintas e olhe, acha que sequer participam? É    ruído.  Acontece esporadicamente, um ou outro... raramente, os outros impedem. Enquanto o professor explica,  está tudo a fazer o que lhe apetece; no telemóvel ou as raparigas mostram constantemente as unhas umas às outras.
  dias passei-me com algumas delas; estava uma para  a outra; " Olha as minhas unhas, não estão  perfeitas ?" e a outra responde, " Vou fazer as minhas para a semana, estás a perceber?"
" Eu sei de um lugar bom para isso." E o professor a dar a aula. E ela para o professor; " Professor,    viu as minhas unhas?  Olhe, são  bonitas, fiz ontem." Odeio quando estou num  grupo de raparigas e o assunto são as unhas. Dá-me nervos, esqueça. Elas às  vezes são  irritantes!  Estão  interessadas em tudo, menos  na vida escolar. E, o mais interessante é que elas depois vão pesquisar no telemóvel lugares para fazer o raio das unhas, a seguir mostram ao professor também. Os professores não se chateiam, já  se cansaram, já  não  ligam. Eles vêm tudo o que se passa. Há  uma delas que chama o professor e diz :"Venha aqui para lhe mostrar uma coisa, olhe, este lugar é  muito bom, aqui fazem unhas bonitas, é para a sua mulher, se ela estiver interessada..."
A mais incrível é a maquiadora, começa a aula, entra, vestida de forma excêntrica, parece que vai para um desfile de moda. Ela chega ao lugar e mete  um espelho pequenino, virado para ela. A aula decorre e ela vai-se vendo ao espelho, claro.O quê?  Para aí meia hora antes de terminar, tira outro, muito maior e muitos objetos da bolsa... e começa a se maquilhar à  frente do professor. Ele vira-se para ela: "O que é isso? ; " Estou a me maquilhar." ; " "E está a fazer isso, porquê?"; "  Não estou a incomodar ninguém, não posso continuar a fazer isto à  minha vontade?
Há ocasiões que o professor cala-se para não chegar à ignorância.  A aula dela é se maquilhar.   Há outra também do mesmo género, com o mesmo tipo de roupa, usa saltos de meio metro, ou coisa parecida. Julgam que a sala é passagem de modelos.... Eu já lhe disse e ela respondeu:" Ah, mas as botas são minhas".
Não vale a pena falar com estas pequenas, porque não vai mudar nada.  Elas são assim e até os próprios professores desistem. E desata: " Quero o meu lugar porque sou aluna desta turma,e exijo ter um bom lugar para estudar mas não  estuda nada. Esta é mesmo irritante, dá-lhe para ser agressiva,  um dia  destes  empurrou  a mesa pesada, com uma brutalidade  às minhas costas... bateu-me na zona lombar, apanhei uma dor daquelas!Depois tem a coragem de dizer que é uma brincadeira.  As brincadeiras dela acabam sempre por magoar os outros. Eu também não estava no meu melhor e ela fica atrás de mim, sentei-me e irritado, dei uma cotovelada na mesa com força, não sabia que ela tinha a mesa junto do estômago e fi-la vomitar. Fiquei aflito e pedi desculpa.
E quando o assunto são rapazes? Fogo, esqueça!  Aquilo dá-me cabo dos nervos! Mostram o Instagram deles todos umas às  outras. E lá  vem uma e diz: Ah!o meu namorado não é assim tão bonito !" e é  caso para acabar com o namorado por causa do outro que é  mais " giro"?! Diga-me, se isto não é um manicômio?  O que é então?
Eu tive uma namorada, só  que ela vive em Lisboa, acabou por isso, ela chegou à  conclusão que a distância era um impedimento. Filha de professores, pense nisto e ela quando viu pela primeira vez a minha foto, no Instagram, atirou-me esta! : "Puta que te pariu, és  lindo como um pau".
Conheço uma miúda de doze anos que só  numa frase deve dizer para aí mais de quarenta palavrões, isto dentro da sala! Do  tipo; "vai levar no cu", "dá  o cu à  tua prima". Ele responde: " É?  então vai chupar a pila da tua mãe. " Ela responde : " vai foder a tua prima, seu caralho, filho da puta! "
O professor pergunta: " O que é isso?! " e eles: " A gente está-se a tratar como colegas, é assim que se fala, o que é  que o Sr o quer, também? Eu falo como eu quiser, cara de vaca! " O professor resolve fazer participação e manda sair. Antes de ir porta fora ainda são capazes de resmungar:" Quero lá saber, filho da puta". Houve uma aula que só ficaram tres alunos, o resto foi expulso para fora da sala, vão passear...
Digo-lhe mais, os testes são todos copiados e quando lhe digo todos, são  mesmo todos. Nós copiamos pelos colegas dos lados, se não dá, copia-se pelos de trás ou por quem está à  frente e uma delas alertou-me : " Carlos, faz  cábulas porque isso é o que te vai salvar, senão vais te foder".
Confesso que não estudo muito, estudo pouco mas estou atento às aulas e depois, conseguir ouvir é complicado porque aquilo é caótico. Uma completa desorganização, só palavreado, tratam- se mal uns aos outros. Não há respeito nenhum e julgo que a culpa é dos pais entre si, os dois, o casal e depois os filhos vão ouvindo e repetindo.
Numa aula de História, estávamos todos, a professora resolveu passar um filme, passados para aí,  uns trinta minutos, olhei à  minha volta, observo que só  mais duas colegas estão como eu, a prestar atenção, o resto de cabeça deitada, coberta, outros de olhos fechados,  penso que aproveitaram para dormir...
Estou louco para terminar este curso e ir trabalhar, olhe, atenção, isto acontece numa escola bem-conceituada.
Professora, que ideia ficou disto tudo que lhe contei?"
PN
Imagem - NET

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O negócio das açucenas



Pintura de Monika Luniak

O odor a podre já vai longe
As ratazanas passeiam no Vale do Porco
Rosnando defensivas, deixando um rasto de avisos
O lugar é delas, nada de atravessar a área
Os saltos afiados e laminados roçam imediatamente a corda
na tentativa maldosa de não permitir que outros consigam subir
O touro murcho de ignorância e mal dizer
incha e distribui açucenas
às ratas e ratinhas, às baratas e baratinhas
As araras deliram dançantes
dispostas a tudo por uma açucena!
As corujas são mais matreiras, mais espertas, espírito empreendedor
Caprichosas e desavergonhadas ...
colecionam plantações das ditas flores
dão o couro cabeludo para preservar as culturas
extremosas beatas do inferno, inspiram
e espreitam de soslaio, a ver se outra beata
cobiça o  que é delas. Sôfregas por mais e mais!
Lamuriam-se enfadadas pelo trabalho despendido,
cansadas, a arfar de tanto alisar as pétalas da vaidade
perigosas e maldosas.  Minorcas, metem estacas nos pés
para parecerem maiores, muito maiores...ainda assim…
O corvo, ronda por ali, de galho em galho, manhosamente cortês,
apanhando grãos dispersos e valiosos
dando o ar da sua graça, exibe um trabalho de “mestre”
Dá-se a todos, mas não gosta de ninguém
  tentador, ansioso por trepar…a galhos mais altos e seguros
Move-se perspicaz por entre as mais complexas sinuosidades com a ligeireza de um príncipe e   ronha disfarçada
A grande maioria vende a alma por uma açucena, o corvo também, mas é cauteloso...

Ele recebe as flores, exibe-as na mesma, no entanto, finge modéstia, ufana-se pouco e guarda-as sem causar grande alarido.
Teatraliza, simula, coloca-se a par, espera que a próxima abelhuda não o pique e afasta-as devagar.
Aguarda pacientemente o momento certo, aquela distracçãozinha do touro míope e tonto
 E aí sim, espeta-lhe a bandarilha. Anda de olho naquele lugar…
Aprende,  oportunamente há-de exercer o mesmo tipo de tirania...
O corvo tem habilidade de trapezista, passa por bonzinho, aplicado e humor
refinado. Agradável e inteligente
O touro murcho, fica-lhe atrás, falta-lhe perfil de líder
Por isso a sujidade bafeja no Vale do Lobo Porco
O touro arma-se, mas não tem estofo...as suas armas? ser vingativo e mau!
Inclina-se para os bastidores, onde age à calada
Sem escrúpulos, sacode árvores, deixa os frutos virem ao chão
Dispõe, a lei inquinada, nada a fazer, existem as açucenas pelo meio…
Lá estou eu, atravesso a tua garganta como uma lança de denúncia,
 Olhos nos olhos e as minhas estruturas tremem à tua frente, sou a filha
mal amada… um pai ditador. Por isso escondo o temor
Levantas os abraços, esbravejas, intimidas
Retiras-me todos os argumentos, és dono de quê? tua verdade!
Da minha não! E a verdade está do meu lado!
Brincas cruelmente com a minha vida, como bem te aprouve
O sistema defende e acoberta pulhas como tu
Somos tão diferentes! Que bom!
Empurras-me e continuas a empurrar e eu a escorregar…
Tropeço no lodo, tropeço de novo
Sucessivamente rasteirada em quedas medonhas
A espinha dorsal endireita à custa do meu escudo interior
Equilibro-me no fio e penso e repenso que o abismo mora ao lado
 Sei que aguardas… no entanto, nunca caio nas tuas ciladas!
PN

ML

domingo, 5 de janeiro de 2020

Segredo íntimo



Pintura de Daniel F.  Gerhartz             

Só  me "dispo" em privado e para ti. A condição; respeitares a minha nudez. PN


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Pessoas que se parecem com anjos

Surges em bicos de pés na noite febril e massajas com as tuas palavras o meu ego assustado.
 PN
  Pintura de Daniel F. Gerhartz