terça-feira, 7 de maio de 2019


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Tempo de Adoração da figura abjecta

Encontro frequentemente o beijo de Judas.  Ele espreita o meu rosto, vem acariciar a pele macia; sinto um roçar  de casco duro tocar, lança  um sorriso manhoso, dos olhos, um frio metal a fingir de ternura e uma fisionomia revestida de candura. 
Digo para mim;  foge depressa dessa coisa ruinosa, pegajosa e mentirosa porque está  na moda mentir; e está  na moda ser manipulado e gostar de ser manipulado para ficar do lado de dentro , ainda que seja obscuro. 
PN 

terça-feira, 16 de abril de 2019

O Inferno de Arthur


O jovem sacerdote Gregório pensou ser mais vantajoso para aquela gente ter alguém a defendê-los; de si próprios, das emboscadas, assaltos e até das investidas de animais perigosos que circulavam naquela região. Apressou-se a solicitar a presença dos populares para auscultar as suas opiniões e transmitir as suas.

Assim que a carroça, puxada por um cavalo branco, foi avistada; grande alarido se levantou, o imenso assombro depositou uma ruga no sobrolho de Gregório.

Chegado ao ponto de encontro, freou devagar o cavalo lento e assustou-se perante o alvoroço de um grupo de homens numa vozearia ininteligível.

Tornou-se pálido ao ver exposto;

paus, facões, espingardas, pistolas…

Imóvel, no banco da carroça, aguardou o desfecho final.

Temeu o pior quando ouviu disparos, depois percebeu que os tiros

tinham sido disparados para o alto. Os homens retiraram-no do banco 

transportaram-no sobre os ombros. Iriam executá-lo? Um tremendo calafrio
percorreu-lhe a  espinha dorsal …  mais à frente  o medo serenou ; atento; notou nos seus rostos demonstração de júbilo e euforia… alguns tocavam-lhe nas mãos, nos braços, no rosto, foi com grande alívio que constatou a alegria com que  o recebiam; à maneira deles ; a ovação comoveu-o e as lágrimas assomaram-lhe aos olhos azuis.

Baixaram-no com desvelo, tratamento dado a um andor.

Agora, frente a frente com a sua gente; dirigiu-lhes palavras de valor e conforto; todos ali o conheciam, sabiam da sua simplicidade, da sua fé, do homem assisado, do seu trabalho; pronto para qualquer chamado, fosse qual fosse o motivo. A fisionomia marmórea benevolente, os cabelos curtos, louros lisos, cova no queixo. Residia ali a beatitude de um altruísta, defensor acérrimo dos ditames de Cristo, um estudioso, complacente e vigilante; possuía um verdadeiro espírito missionário.

Falou-lhes aquilo que precisavam ouvir; O alimento para a alma. Tal como as ovelhas esperam do bom pastor.

Expôs o quanto precisavam de um líder corajoso, a quem escutariam e confiariam os destinos do povoado. Os olhos procuraram entre a multidão à sua frente e encontraram a tal personagem que lhe fazia sentido, fez sinal com a mão. O outro; barbudo, cabelo pelos ombros, olhos escuros, colocou as pontas dos dedos no peito -  Eu?

Sim, ela ele! Saiu de dentro da massa de gente que permanecia em silêncio e foi colocar-se na frente do padre:

- Venha cá, Arthur, vire-se para as pessoas! – aconselhou enérgico.
- Mas eu, padre?  

- Porque não? Conheço-o há tempo suficiente para dizer que tem tudo o que é preciso num líder, então…é a sua oportunidade para demonstrá-lo

- Obrigado padre, por confiar em mim.
- Ei, ouçam, se concordam que o srº Arthur seja o nosso líder aplaudam, se alguém discorda, levante a mão e se pronuncie.
Ladeou Arthur pelos ombros e o outro colocou o braço à volta da cintura do clérigo, esperaram a manifestação das pessoas. Ninguém contra. 

Cumprimentaram-se ambos e Gregório apressou-se a celebrar missa ali mesmo. Ainda tiveram tempo para confraternizar e aos poucos dispersaram; cada um foi aos seus afazeres.

A azáfama retomou o seu habitual; trabalho braçal, cascos de cavalo, carroças rolaram no chão de terra batida, cânticos de louvor a Deus, cânticos de coro, cânticos de amor à terra que dava frutos para viverem, cânticos alegres e abraços calorosos, e diálogos produtivos e alguma prosperidade.

Arthur reunira mais homens para não ser facilmente vencido, cauteloso para não desiludir o amigo Gregório. Passados muitos meses, começou a prestar atenção ao monte à sua frente, subia a cavalo até ao cume, para observar as outras montanhas que se entrepunham à frente daquela. Até que uma madrugada, antes da povoação acordar; mochila às costas, sorrateiramente subiu o dorso do cavalo e pôs-se a caminho.

Assim que os homens notaram a sua ausência, fizeram chegar ao clérigo o seu repentino desaparecimento; uma busca por ali mesmo, talvez tivesse caído por uma ravina ou tivesse sido atacado por um animal feroz, três dias de busca intensa e nada da sua localização, nem uma pista que fosse. O vigário deu o alerta; acaso alguém o encontrasse, que fosse prontamente  socorrido ou corresse a  pedir auxílio.

Passou um mês; comentavam e colocavam todas as hipóteses;  até ter sido morto e levado por um urso.

Certo dia, avistaram um indivíduo a cavalo, a campainha da aldeia soou. Os populares acorreram até ao cimo do monte; uns apostavam que não, outros apostavam que sim! …ali amontoados, o padre pediu licença, colocou-se à frente e afirmou:

- É o sro Arthur!

E foi um alarido de contentamento, o sino da capela tocou e Gregório pediu que o fossem alcançar, podia estar ferido ou muito gasto. Os cavalos saíram numa corrida veloz.

Arthur desceu a montada devagar e ajudado pelos seus homens:
- Padre… - começou o líder…
- Agora não, vá descansar, lavar-se e saciar a fome que bem necessita! Depois conversamos! – aconselhou, pois via ali  um homem extremamente derreado.
Dois dias depois, Arthur veio bater à porta do padre, aparara o cabelo, a barba, roupas frescas…
- Entre, entre, parece um ator de cinema! ficou mais jovem! – observou Gregório com alegria – quer um café?
- Obrigado, não me apetece um café agora, padre! Já estou bem, vim falar consigo, devo-lhe uma explicação.

Os dois sentaram-se à mesa da cozinha:

- Então sro Arthur, que aconteceu? – perguntou morto de curiosidade
- É assim padre, arrisquei demais e sozinho, quis ir  longe e encontrei um desconhecido a cavalo, chamado Frederico, apontou-me logo uma arma …
- Felizmente reconhece que se expos ao perigo e até à morte! - proferiu sério - e esse desconhecido não lhe deu nenhuma chance?
- Nenhuma chance! fui levado para uma povoação maior que a nossa, com outro tipo de construções, mais desenvolvida… e quando percebi que ia mofar na cadeia, fiz o possível e o impossível para escapar e cá estou!
- Que coisa doida, sentiu medo, não?
- Oh, padre! Julguei que não voltaria a ver a luz do sol!
- Quem é esse homem?
- É um homem mau, o governador daquilo lá, ele manda em tudo!
- Pensa que virá atrás de si?… - a aflição do padre era evidente
- Acho que mais dia, menos dia, vem me buscar!
- Deus permita que se esqueça! Falou de nós? Ele sabe que existimos?
- Não, nunca! Apenas disse que me tinha perdido; um ser isolado, longe de casa.
- Isso não me agrada…  que coisa ... mas   provavelmente  acaba por esquecer o episódio! – tentou tranquilizar a sua  alma inquieta.
- Não conte com isso, temos de nos preparar para tudo! Vou armar os homens e os civis têm de colaborar…
- Lá se vai a nossa paz! – lastimou-se profundamente
Havia nos olhos de Arthur uma faísca estranha, uma expressão escura, a possibilidade de um conflito, deixava-o desgostoso, a ele e a Gregório, talvez fosse isso mesmo.
O padre observava o seu líder e aquele espírito beligerante crescente, aquela forma de incitar os homens para um conflito armado, deixava-o desconfiado. Que acontecera com ele? Teria contado toda a verdade?

Até que um dia foi o alvoroço total, alguém anunciou que vinham aí ; muito homem armado!
- Não lhe disse, padre?!
Gregório levou as mãos à cabeça:

- Eu temia isto mesmo! Escute, sro Arthur, evite o confronto, vou içar a bandeira branca!
- Padre! Perdeu a cabeça, agora é o senhor que quer  morrer?
- Tenha calma, tentemos um pacto de paz, eu mesmo irei lá, até eles!
- Idiota, vai estragar os meus planos… - resmungou entre dentes
- Que disse, sro Arthur?
- Nada, eu nem falei!
- Desculpe-me, estou nervoso com esta situação…
- Não se preocupe, eles que venham, nós responderemos e eles vão ver como é!
- Sro Arthur, não fale assim! Não antes de eu tentar…
- O padre é que sabe! – respondeu revoltado
- Que lhe aconteceu, sro Arthur? Está diferente da pessoa que conheci.
- Arrependido por me ter nomeado líder?
- Arrependido não! Aconteceu algo quando se ausentou, voltou outro…! Quer se livrar do que o atormenta? Podemos falar disso! – rematou com humildade
- Ah, padre, julga que é hora de me confessar? – e afastou-se apressadamente, enquanto Gregório examinava-o boquiaberto.

Havia balbúrdia e correria por todo o lado, o pároco, a tremer por dentro, lá foi na carroça desengonçada, a dirigir o cavalo com puxões leves nas rédeas e comandos de voz. Quando chegou a meio campo, levantou-se e ergueu a bandeira branca, nisto um homem da linha inimiga, veio ter com ele a trote calmo. Trocaram impressões, estenderam as mãos e saudaram-se, o recém chegado voltou para os seus acompanhantes  e deu ordem de retirada. Arthur, raivoso, atirou-se discretamente ao chão, rolou num ápice até uma moita, ali perto. Fez pontaria e disparou contra as costas de Gregório, e rapidamente retomou o seu lugar; distraídos; ninguém notara nada. O padre, ainda teve tempo de se voltar, arquejante, olhou para o líder, a bandeira caíra da mão, e com olhos apavorados, compreendeu o terror da traição, os lábios abriram-se e desenharam em silêncio um nome; Arthur, porquê? Os olhos de Gregório fixaram-se nele momentaneamente.

Arthur, incapaz de se mover, cerrou as pálpebras com força, consciente da loucura que acabara de cometer.

 Logo a seguir, Gregorio  tombou da carroça mortalmente para o chão, o líder foi a correr vê-lo, soergueu-o  do chão, tentou tomar-lhe o pulso, estava morto. Abraçou-o em pranto, dizendo baixinho:
- Perdão padre, perdão! Que fiz, Meu Deus!

Todos julgaram que o inimigo havia baleado o padre e insurgiram-se como loucos contra aquele ataque a um homem santo. Inclinado para o cadáver  nos braços, de repente, Arthur levou, uma pancada forte na cabeça e desfaleceu
Vencidos, os que restaram foram levados pelos homens de Frederico, para a outra povoação,longe dali.  Arthur foi com eles.

Isolao,  na prisão, bradava:
- Padre, onde está? Padre, que lhe fiz? Padre, fale comigo! Diga que me perdoa! – e repetia vezes sem conta as frases, ora aos gritos , ora  lavado em lágrimas e em  gemidos. Via-o nas paredes, no teto e chamava-o. Certa vez chegou a suplicar a um dos homens que fazia ronda, que o executasse. E não sossegava; noite e dia. Gritava sem parar, atirava-se contra as paredes, sacudia as grades. Queria falar com o padre Gregório. Só ele podia salvá-lo daquele inferno. A sua alma culpada não encontrava paz, nem sossego! Pedia a morte vezes sem conta. Ninguém o atendia. Até que, sabendo daquela tormenta, Frederico quis que o trouxessem à sua presença:

- Diga-me, de quem se trata?
- Sou Arthur, o responsável pela morte do padre Gregório e das outras pessoas!
- Porque diz isso?
- Eu matei o padre e desencadeei uma guerra estúpida e sem sentido!
- Porque matou o padre?
- Ele queria o contrário de mim!
- E o sro desejava o quê?
- O que era seu!
- Meu? – a perplexidade tomou conta de Frederico
- Sim , do sro – revelou e apontou para o outro
- Explique-se melhor! – pediu calmamente mas incrédulo.

- Certa ocasião aventurei-me e sai de lá sem ninguém saber , avistei-o a si e segui-o e vi que vivia em melhores condições que nós, havia desenvolvimento aqui, quando regressei, a inveja, a cobiça, a  raiva apoderaram-se de mim, já não podia ver ninguém , desprezava  o padre, o melhor amigo que tive na vida. Eu sou apenas um desgraçado  rude, bravio, sem família, um falhado que o padre escolheu para ser líder! Intimamente a vaidade foi-se  entranhando em mim e comecei a sentir vontade de querer mais, aquilo era pouco para mim.

- Ambição desmedida!
- Além de cometer a maior atrocidade da minha vida, provoquei uma guerra; houve baixas do meu lado, houve baixas do seu  e tudo por minha culpa,   culpa que carrego nos ombros. Trai quem confiou em mim ,entende?
- Vou libertá-lo! – decidiu com firmeza
- Não faça isso! Por favor, sou um criminoso, mereço a morte, não vê?
- Vejo um sujeito arrependido, a culpa é o fardo que vai carregar para o resto da vida. Amava o padre? Eu vi-o ser baleado, não fazia ideia de quem tinha disparado. A versão do padre foi invenção sua?
- Foi invenção minha, eu menti mas amava e amo – a voz embargada
Frederico levantou-se da cadeira e foi ao encontro de Arthur e abraçou-o:
- O sro é bom para mim, porquê? o seu gesto aumenta ainda mais a  minha dor e a minha culpa!
- Essa cruz é sua, sro Arthur! Que quer que lhe faça?
- A morte! – respondeu prontamente
-  Não!  acaso serei eu um reles carrasco ? Não! Precisa se regenerar!
- Que mereço, então?
- Olhe, tire essa barba, corte o cabelo, que mais parece um urso e vá para o hospital ajudar a sua gente que ficou ferida, será ajudante dos médicos e enfermeiros, quando terminar essa tarefa, tenho outra missão para si.
- Que missão, sro Frederico?
- Vai igualmente ajudar a erguer uma capela, em memória do padre Gregório, trabalho árduo e de hoje em diante a sua casa será o convento.
- Aceito sim, sro Frederico.
- A sua gente mais perigosa continua presa, uns dois ou três, o resto está fora ou no hospital. Isto não é um castigo, é uma forma de se tornar melhor homem e expiar os seus crimes, o sro Arthur tem um fundo bom, sei que lhe fará bem, é conveniente  para si e para mim.
- Eu sei que é o padre a pedir por mim! Outro, no seu lugar, condenava-me logo à morte.      
- Então agradeça todos os dias ao padre Gregório e a Deus a sua sorte!
- E a si também!
- Se quiser, pode ser! Peça também a Deus por mim! Agora vá cumprir a primeira  parte do nosso trato.

Arthur, ocupou-se  da sua gente, pediu desculpas a todos eles, lamentou a morte de outros, ergueu a capela em memória do sacerdote, aproveitou as horas mortas no convento, onde se exilou, para se instruir, descobriu o seu verdadeiro talento e na parte traseira do jardim, esculpiu  um conjunto de estátuas, dizia que representava uma missa celebrada por aquele que jamais esquecera. Frederico, mandou abrir as portas do convento a quem quisesse admirar as obras e acrescentava que ficariam ali, para quem, de mais distante viesse, pudesse apreciá-las. E assim aconteceu, o nome do escultor correu mundo, recebeu gente de lugares que nem imaginava, deu a conhecer a sua arte, ensinou outros. Tornou-se afável, no entanto, parco nas palavras. Quem passasse à porta da sua cela, ouvia-o todos os dias  a falar com o seu amigo inseparável, por vezes chorava recolhido na sua dor, rezava baixo e provavelmente orava.

 Morreu já com idade avançada, quis se confessar a um dos monges do convento que permaneceu à sua cabeceira até ao fim; contou que Arthur nos momentos finais, balbuciou algumas vezes o nome do tal padre, estendeu a mão direita e acrescentou num fio de voz:

- Padre, veio me buscar? Estou pronto… - um sorriso a desvanecer-se no rosto, os olhos muito abertos, fixos no teto; o estertor da agonia…do canto do olho direito, uma lágrima soltou-se devagar e foi sepultar-se na almofada. Em seguida, o sofrimento parou. Arthur era agora um homem livre. O monge cerrou as pálpebras a um irmão que tinha amado o outro, durante toda a sua vida.
PN 
    
 Desejo a Todos os Amigos, uma Santa e Feliz Páscoa. 

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O melhor tempo


A casa amarela era um gigante dentro do jardim
À volta havia muitas escadas;
Subiam e desciam em degraus…
 como fios de água  a percorrerem  uma montanha…
Dentro de casa imaginei uma criança muito amada por uma fada
Tempo primordial nos olhos do menino, naqueles olhos molhados de sonhos
e de risadas e corridas e outras coisas ingénuas e inocentes  de petiz;
Vi na íris,  as cores leopardo vermelho poente, beleza rara, dois barquinhos
largados, a voarem céu adentro;
ia pescar estrelas…
Pediste-me a mão:
- Vem fazer de conta!
E lá fui eu pescar peixinhos brilhantes,
Só que me escapavam das mãos e depois ficavam-se a rir da minha inabilidade
O pequenino, agarrava-os e devolvia-os de novo ao mar
que afinal era céu, a terra dera uma reviravolta;
o que era de cima passou para baixo, o que era de baixo passou para cima!
Ele queria apenas entreter-se; correr atrás, apanhar e deixar ir…
Os peixes também eram, miudinhos …engraçados…
Apontou para o sol, que sorria velhinho…
Bocejou e bocejou … a fada apareceu logo
- Vamos, meu menino, já se faz tarde!
Cada um em seu barquinho; a fada, a mim, emprestou-me umas asas de anjinho
Chegados a casa…
ela depositou logo o menino no cálice de uma flor e a pétala abafou-o por completo
só que ele mexeu-se, levantou ligeiramente a pétala e sorriu-me;
- Psiu… – ciciei e coloquei o indicador nos meus lábios
Ele sorriu de novo:
- Vens amanhã?
- Venho.- disse-lhe em tom de segredo- agora dorme, doce menino…
Sorriu de novo:
- Amanhã vamos a outro lugar?
Mal fizera a pergunta, a fada veio a correr, baixar a pétala;
ouviu-se um risinho distante, ele cansado, voltou-se e adormeceu.  
PN

Nota : Baseado na verdade dos acontecimentos

domingo, 24 de março de 2019

A planta

Alguém levou a planta  para fora e depositou no lugar errado,
a pobre planta  sentiu a transmutação...
nem poderia ser de outra forma,
fora do  sítio próprio, imagina-se...
mirra, definha e some-se ...
Quem a deixou lá, nunca mais se lembrou de  saber... do seu estado.
Agora é tarde, que engano, grande engano,
negligenciar uma planta com vida,
uma vida por viver... ainda jovem, a meio da caminhada, tanto para mostrar...
O canto dela ficou mais vazio e mais pobre,
presença insubstituível.
Que desterro!
E os que passam por lá; memória curta; nunca a viram!
Cega gente!

PN 

sábado, 16 de março de 2019

Somos dois


Os cães ladram hoje como nunca os havia escutado antes;
à distância… ao perto… mais e mais perto... a revolta ou o silêncio…
aqui mesmo, ao cruzar comigo…
Alguns olham-me, como interpretar o seu olhar?
Uns atrelados , puxados com brutal força … focinho arrepiado
desejosos de arrepiar caminho, livrar-se do laço
que engasga e  enforca o destino
e a cólera daqueles afiados caninos…
Outros, atirados fora, no lixo,
perdidos de fome e de frio,
mendigos, à mercê do abandono
e um deles fita-me;
e o meus olhos cruzam-se com os dele;
Que dizer?
Olha, já somos dois desgraçados, alguém te abre a porta?... nem a mim,
renegado pelos teus pares, eu também, rejeitado por aqueles que te deviam amar,
eu, igual… 
Vens comigo, lado a lado? Calmos, manhã iniciada, tarde adentro, noite fora …
ninguém dará por nada, nem procurar por nós…

PN
Nota: Amigos, por utilizar a 1a pessoa do singular nas composições escritas, não quer dizer que  me refiro a mim. Obrigada.

quarta-feira, 6 de março de 2019

O reencontro



Camila primeiro cumprimenta Maria Antónia
que está a abrir a janela do primeiro andar
do edifício onde habita, e da janela, em voz alta:
- Camila, é você?! Venha, entre!
A outra desce o passeio e atravessa a rua deserta àquela hora.
Antónia abre a porta e os braços acolhedores e calorosos:
- Que faz por cá?! – o sorriso é amplo e luminoso, sem nenhum fingimento.
- Saudades vossas! - molda um sorriso idêntico
- Que bom ! Esteja à vontade! – continua hospitaleira - já conhece
 a casa, vai-me desculpar  querida, - a mão delicada, pousada sobre o ombro da sua interlocutora -  sabe, estou muito atrasada. Havemos de colocar a conversa em dia…quero saber de si.
- A Valentina não está? – a interrogação é imediata
- Não está querida, aguarde só um bocadinho …escassos minutos,  
foi ali à esquina e está mesmo a chegar - ri-se e após cumprimentarem-se apressadamente , Maria agarra delicadamente a écharpe e enrola  ao pescoço, segura na bolsa de mão e sai porta fora, enquanto se escuta a cadência aflita dos saltos altos a baterem na calçada em direção à garagem.
Camila consulta impaciente o relógio de pulso, só havia passado cinco minutos desde a saída de Antónia.
Um nervoso miudinho asfixia-a, põe-se de pé, roda, mal consegue observar à sua volta, nada lhe interessa.
 Volta a sentar-se, até o anel aperta demasiado o dedo, num ímpeto, retira-o e coloca-o sobre o tampo da mesa de vidro.
A porta abre-se de rompante, Camila sobressalta-se e torna-se
apreensiva, engole em seco e espera que a outra surja.
- Maria! – chama a recém chegada e ao entrar na sala
depara-se com a presença de Camila.
Há uma suspensão súbita, ambas as mulheres escutam apenas
os batimentos cardíacos. Encaram-se mudas de espanto, de pé:
- Valentina, Maria Antónia convidou-me a entrar e saiu a correr.
- Que vieste fazer a sul? – desata indiscreta e indiferente
- Participar numa formação, começou sexta feira e acabou ao início
desta tarde, amanhã volto para o meu norte.
- Com mais conhecimentos? – frieza e tom inexpressivo
- Em princípio é para esse efeito, neste caso até foi interessante.
- E a tua Eugénia, como está? – continua calma e desinteressada
- Julgo que se encontra bem…da última vez que falamos, não
se lamuriou de nada.
- Não estou a perceber, escapou-me alguma coisa?- o tom ligeiramente inflamado
- Escapou, nem podias saber, tu e eu cortámos relações há dez anos
 É que já não vivo com a Eugénia!
- Separaram-se?! – o assombro é grande
- Presumi que terias essa reação! – profere nervosa
- Inacreditável, a convicção com que sopravas aos quatro ventos que envelheceriam lado a lado, fazendo chazinhos uma à outra…tecendo mantas em tricot para se aquecerem mutuamente…
o vosso amor seria até que a morte as separasse…- ironiza descaradamente
- Sonhava com esse amor, no entanto, como tudo, gastou-se como
eu jamais supus.
- Há quanto tempo …?
- Ano e meio e mantenho-me sozinha, decidi parar até me cansar.
Camila cala-se de repente e com mais coragem:
E tu, Valentina? Depois de nós? soube de uns casos teus e sempre assentaste?
- Não assentei, namorei dois anos, terminou e depois mais nada até hoje. Aluguei o meu apartamento e passei a viver aqui com a minha irmã.
- A tua irmã casou? – arrisca nova pergunta.
- Casou com um oftalmologista, divorciou-se
oito anos depois, agora namora com um comissário de voo.
- Vive a vida dela e é feliz. – acrescenta carinhosamente.
- Tudo indica que sim! – responde convicta
- Eu também era feliz contigo! Mas quiseste colocar um ponto final…
Os olhos de Valentina voam até ao teto, desagradada e suspira interiormente
- O que nós tínhamos era único- começa camila lentamente – Um amor verdadeiro, transparente como um espelho, peixe fresco a saltar da rede para o mar, numa alegria imensa- enquanto disserta, coloca os olhos nos da outra, que permanece calada e imóvel- o nosso amor cúmplice, inesquecível. Amor amigo, muito amigo, sem traições, voltaria lá atrás, sem desmerecer o que tive com a Eugénia, logicamente…No nosso amor havia muita líbido, a mestria ficava a teu cargo, sufocava de tanto prazer, de tal forma que parecia iminente uma síncope…os meus orgasmos não cessavam; autênticos vulcões em erupção. A causa desta manifestação; tu, o teu jeito.
As tuas massagens sexuais que aprendias nos filmes porno- Camila fez uma breve pausa para respirar e rir, aliviar a tensão do início –
Impossível não acender; construías todos aqueles cenários com uma ligeireza e uma imaginação prodígio, quando me lembro; no autocarro; com gente nua que copulava em pares despudoradamente, no automóvel éramos sempre acompanhadas de alguém, no elevador, sexo em grupo, ménage à trois, homens que me queriam, que me seduziam… incrível, fantasias deixava-as contigo e como se não bastasse, o uso da linguagem obscena, tudo dito com carinho… e as visitas a lojas Sex Shop, os brinquedos foram atirados fora, a Eugénia não alinhava nisso e eu respeitei. Foste a melhor companheira, a melhor parceira…
- Pena que eu não possa dizer o mesmo, não é? – o rosto seco
- Que se passa, Valentina?- o riso esmorece
- Que se passa?! – repete e acentua
- Tu e as tuas paranóias? – o rosto contrai
- Ai Camila, os maus tratos?
- Que maus  tratos?! – exclama agoniada
- Já te avivo a memória; ser ridicularizada em privado e em público, ser repreendida em privado e em público, ser desvalorizada em privado e em público, ser humilhada em privado e em público, ríres-te de mim! Com que autoritarismo davas ordens!
- Obrigaste-me a ser dura contigo, de culinária nada percebias, nem dominavas, completamente despreparada para uma vida de casal e isso arrefeceu-me. Comecei a desatinar com a situação! Sentia-me frustrada! Acrescento, não aceito que foste vítima de maus tratos, exageras!
- Maus tratos verbais! – refiro-me a isso mesmo
- Vir do Norte ao Sul só para estarmos juntas; fins de semana, feriados, férias  e eu ambicionava viajar para outros pontos do globo como fiz com a Eugenia. Fomos ao México, ao Brasil…mas ela dentro de casa é outra história, tem uma desenvoltura que não tens.
Ela abdicou de certos confortos em proveito das viagens ao estrangeiro, pagar canais de TV para ver séries? pagar NET? Que absurdo! Conversamos e chegamos à conclusão que uns em vantagem de outros. Há prioridades, Valentina!
-Ela é ela, eu sou eu! Nunca te fiz sofrer! Até implicavas com os meus olhos tristes…! – expressa-se alto.
- A tua forma de agir enervava qualquer um!- arqueia as sobrancelhas, irritada
- Nunca me compreendeste e os constantes amuos?
- Ficava sentida, é humano! – responde zangada
- Quem amua são as crianças, por tudo e por nada; um amuo de dias?! Que paciência para aturar semelhante coisa! – o tom seguro, firme e aborrecido
- Olha, Valentina, tens as tuas razões, eu tenho as minhas! Provavelmente fiz mal em ter entrado! – profere ofendida
- Qual foi o objetivo desta visita ? – novamente gélida
- Pensei …pensei que podíamos reatar! – conclui desanimada
- Como?! com tanta divergência pelo meio e eu ainda moro a Sul e tu a Norte ou esqueceste esse pormenor?
- Talvez seja  a solidão a falar mais alto e eu sei que tu tens qualidades que a maioria não possui…
- Mas infelizmente não respeitas os meus limites… eu não correspondo ao modelo que procuras. Já constatamos isso lá atrás!
- Ainda me amas? – pergunta desolada
- Não sei! Dez anos depois, os antagonismos, não sei! Depois de tudo…não sei! – a voz alterada
Camila ajusta a bolsa no ombro e baixa os olhos, encaminha-se para a saída, ao passar pela outra, faz uma breve paragem e encaram-se ambas com os olhos rasos de água. Valentina vencida, puxa-a para si sem dizer mais nada. Os braços de Camila correm a cintura da outra e percorrem as costas. Valentina  segura a cabeça de Camila entre as mãos e beija-a sofregamente; um beijo longo e profundo, escuta um soluço  descer a garganta de Camila, logo de seguida, larga-a e deixa-a sair sem acrescentar nada. Deseja detê-la … todavia, não pode, nem deve.
Cá fora, Camila, recompõe-se, morde o lábio inferior, limpa as lágrimas do rosto e quando mexe as mãos, apercebe-se da falta do anel. Hesita, volta-se para a porta, sente medo, ainda assim, toca a campainha.

PN