Há fumo pelas serras fora…
o vapor tropeça nas vertentes húmidas
cortinas corridas, janelas esvoaçantes …
cabeças sem juízo
das casas encolhidas com frio
escondidas no sopé dos montes …
abrigadas dos ventos fustigantes
Numa síncope desfalecida, o céu tomba
mais cadavérico que nunca…
e vai habitar os troncos decepados
As bruxas soltam-se em tarde sombria
mas estão velhas, cansadas e doentes
e o feitiço já não vinga…
procuram asilo em lareiras frias
onde deus voltou as costas e se foi embora…
Uma penumbrazinha descuidada mete o pé no charco
e fica a cogitar contrariada
foi sujar-se mesmo antes de adormecer …
agora vai ter de se deitar em lençóis frescos…
a cheirar a terra vilã e a erva desgraçada
Que passo desconcertado…
os queixos apertam, rangem de martírio
as sílabas inacabadas tremem periclitantes
O farol engoliu a bofetada e desapareceu mar adentro
um estouro de onda, pobre desnorteada
deu-lhe o rumo certo…
para além, fora do manicómio das cabeças desunidas
para longe, onde não se respira o pó que morde
o lugar das pedras lúcidas e curadas…
PN
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
As feras
Grande é a aflição
Tão triste penar
delírio de lágrimas
a descer do calvário.
Rosnam caninos
Verdades estragadas
laranjal amargo
flor cuspida no chão
Andam à solta... à solta
as feras de salto alto
maquilhadas, aromáticas
travestis plastificadas
Vazias, feias, escarninhas
Ávidas de estrelato
As feras rondam… rondam
farejam bêbedas, soporíficas
lunáticas, descaradas
chutam ideias estúpidas para o ar…
Intrometidas, intrusas,
ditadoras,
sem nenhuma sabedoria
deslumbradas …
na mísera condição.
Os corcundas vaidosos
metem dó
de tamanha subserviência
de tamanha servidão….
beijam o chão das feras
lambem o próprio pó…
É vê-los soberbos, arrogantes
com outros de rasa condição
ou seus semelhantes…
Brandos, calmos, limitados
com as feras de salto alto
tontos, atarantados
aduladores salivantes
Cães sem raça, nem postura
míopes, cegos, caricaturantes
autênticas bestas irritantes.
PN
domingo, 26 de janeiro de 2014
Que realidade....
Dói-me ver os filhos da pobreza
de mão estendida;
rotos, esfarrapados...
barriga vazia
E, cada vez mais a inimiga riqueza
os deixa literalmente deformados.
PN
de mão estendida;
rotos, esfarrapados...
barriga vazia
E, cada vez mais a inimiga riqueza
os deixa literalmente deformados.
PN
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Espírito de Natal
O céu desce
numa pálida nuvem
O dia amanhece
dentro da gruta
Os anjos bocejam
num trejeito ingénuo
Os sinos bamboleiam
Num tom alegre…
É chegada a hora
da luz cobrir
o que de trevas
está para vir…
ó Salvador surge agora
salva os bons do poço sem
fundo
e condena os maus a um mar de chumbo
As fontes cantam de rosto lavado
água benta corre o prado
lágrimas rebentam
dos olhos varados
E das alturas,… das alturas
vem um gesto desejado….
PN
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
A folha branca
Não é no tecto que encontrarás as linhas curvas, ondulantes, as linhas retas, as linhas finitas e infinitas, as linhas quebradas,ziguezagueadas, mastigadas, esticadas, sinuosas, majestosas, espiraladas, curtas,compridas, grossas e finas.... é na tua folha de papel.... deixa a tua mão correr, nesse diálogo firme , vigoroso e aventureiro e se porventura uma dessas linhas sair fora dos teus planos , do percurso traçado,segue-a, até onde for possível...quem sabe se não te mostrará outro caminho possível,um atalho que fará toda a diferença e poderá mudar o rumo do teu desenho...
PN
Perdoem-me a ausência nos vossos espaços...a seu tempo marcarei presença com o mesmo prazer de sempre. Abraço.
sábado, 9 de novembro de 2013
Passa o som e deixa um espaço...
_________________________
A distância percorrida é leve, fina espessura,
Resistente, persistente
Nesta suspensão algo demorada
O borrão afogueado e rubro
Invade a toalha alva.
Embebeda-se…
encharca-se de pureza.
O vazio estende-se, pendura-se no estendal
da roupa e redemoinha
nas guitas
quase enforcado no gesto colérico, brusco…desmedido
e o sangue espicha, guincha
na tranqueta, solta-se e
espeta-se na camisa … a denúncia !
Um sopro, ar sorvido
e expelido com abundância …a caravela
periclitante foge primeiro de mansinho…depois corre doida mar acima, mar abaixo…
apanhada no susto sem tamanho…
o horizonte desalinha-se, inquieta-se
da tinta que se desencontrou do suporte…
forma meandros sinuosos
longos…estradas apertadas
nostalgias largas
e no momento da derrapagem
o sono trai o controlo
a caneta falha
e rola desesperada
para fora das orlas
tudo perdido…ou quase…
vislumbra-se na distancia o lenço branco
a vela rasgada e sem esperança …
e a mão mecânica
persegue
insistente o sofrido algemado
nas veredas do que mói e até dói
no fundo do poço a aliança
para sempre restabelecer
a digna confiança…
PN
9/11/13
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